O legado de The X-Files: Inovação (por Telma Teixeira)

Uma das memórias que tenho de X-Files nem sequer envolve estar a ver um dos episódios. Estava numa loja de música e na rádio que tocava nessa loja passava um programa especial dedicado ao album “The Truth and the Light: Music from the X-Files”. Nesse momento, em 1996, a série estava no seu auge e o meu grupo de amigos dividia-se entre os que a viam ou os que já se tinham ouvido falar naquela série que era diferente, viciante e inovadora. Eu estava no grupo de que a via pelas duas primeiras razões que invoquei mas, só anos mais tarde é que realmente compreendi o quanto X-Files foi inovadora a vários níveis.

Um tema para governar sobre todos os outros

Apesar de X-files apresentar um caso bizarro todas as semanas havia um caso que dominava Mulder e que era o elo de ligação entre vários episódios e temporadas: o rapto da sua irmã por extraterrestes. Porque é que ela tinha sido raptada, quem a levou, estaria viva, porquê ela, como recuperá-la? Estas eram as perguntas que os fãs faziam com Mulder e Scully, apesar de eles investigarem todo o tipo de temas. O formato ajudou a fidelizar os fãs, semana após semana, pois cada novo episódio, mesmo que não directamente relacionado, poderia trazer uma nova pista sobre o grande mistério da série ou aquilo que hoje chamamos “a sua mitologia”. Hoje muitas séries adoptam esse tipo de narração exactamente com esse propósito.

Merchandising e telemóveis

Do que eu me lembro dessa altura, só os grandes filmes ou as bandas é que tinham muito merchandising, mas não séries de televisão. Lembro-me sim de posters da Pamela Anderson, da Baywatch, mas X-files tinha uma panóplia extensa de itens, além de t-shirts e posters a dizer “I want to believe”. Lembro-me perfeitamente que cada início de temporada tinha uma máquina de marketing cada vez mais forte e, como já falei, até o próprio tema principal da série deu origem a um álbum que foi lançado em 1996.

Outro elemento que era parte integrante da equipa Mulder e Scully eram os seus telemóveis. Onde quer que estivessem, eles estavam sempre contactáveis um com o outro. Para quem não viveu nessa época, os telemóveis eram um objecto raro e dispendioso que só se massificou no final dos anos 90. Era bizarro ver alguém na rua falar ao telemóvel mas víamos os dois a utiliza-los com bastante naturalidade e safarem-se de situações difíceis graças a eles.

Ahhh, a internet!

“The lone Gunmen” era um trio de 3 geeks a quem o Mulder recorria para obter mais pistas sobre alguns casos em que trabalhava. Normalmente eles recorriam à internet, onde as teorias da conspiração floresciam livremente e entravam em sites que não podiam entrar, etc… Deve ter sido nos X-files que ouvi pela primeira vez a palavra “hacker”. Tal como os telemóveis, os computadores e a internet só passaram a ser comuns em Portugal muito depois. No entanto, nos EUA o panorama era muito diferente. Os fãs de X-Files discutiam entre si os episódios da série online, e tal como os três personagens geek, teorizavam sobre a série dessa forma até então inovadora. A equipa que produzia a série, atenta a esta comunidade online, premiava os fãs com pequenos “easter eggs” na série, daquilo que se falava online. Aliás, a razão pela qual o trio de geeks passou a fazer parte da série de forma recorrente foi porque as pessoas identificaram-se imediatamente com eles e com o que eles faziam.

Hoje ver um episódio e twitar a reacção ao que se está a ver é tão comum, as audiências são medidas através de sites como o getglue, os fans são incentivados a criar sites e foruns dedicados a essas séries que é difícil perceber que isso não existia antes de X-Files. Eu não tive essa experiência online. Basicamente eu via a série e no dia a seguir ia para a escola e falava com os meus amigos que também viam sobre o episódio. Teorizava com eles, tinha acesso a revistas, lembro-me de haver t-shirts e posters mas pouco mais.

Rever X-Files hoje é como ter uma janela para uma década que se preparava para encerrar um século e milénio e se preparava para receber outro. Era com esse medo, não só de doenças e coisas bizarras mas, acima de tudo, do futuro incerto, com que a série brincava. Acabou por também moldar o futuro da televisão. Hoje, quando comentamos um episódio, seja num blog, forum ou numa rede social podemos agradecer esse comportamento aos fãs pioneiros de X-Files que o fizeram pela primeira vez.

Para continuarem a seguir a Telma, aqui fica o link para o seu blog: Ler e reflectir…

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