Sobre Tiago Vitória

Com uma maioridade ainda não assimilada e um sentido crítico mordaz e apurado, aqui me encontro eu, entre vós, a comentar a generalidade da cinematografia e do audiovisual televisivo com toda a pompa que a circunstância me permite.

Séries Para o Verão, por Tiago Vitória

Twin Peaks

Por vezes tenho dificuldade em definir Twin Peaks, se por um lado a podemos como uma série pequena, quase me atrevo a classificá-la como um filme grande. Dividida em duas temporadas – não só quantitativamente mas tematicamente – este é um produto da convergência de todo o imaginário referecial de David Lynch. Se na primeira temporada o assunto é “Quem Matou Laura Palmer?”, onde Lynch escorrega por uma multiplicidade de símbolos e situações surreais bastante mais perceptíveis a nível espiritual e psicológico, na segunda temporada, Lynch explora o poder da crença e a forma como estes símbolos podem ser palpáveis e muito mais objetos que pensamentos ou medos. O assunto já não é mais Laura Palmer mas antes aquilo que a sua morte deixou, o rasto de perigo e de esoterismo desencadeado pela sua morte – aí, este momento, Twin Peaks é Lynch de início ao fim.

Ao contrário do filme, uma série, existe muito no tempo. A extensão dos episódios são distribuídos por uma altura do ano, que não deixam de influenciar a vontade ou a forma como nos sentimos. Se assim é com séries ainda no ar, o contrário não se verifica com séries já terminadas – podemos ver inúmeros episódios por dia e encurtar aquilo que foi 2 anos de série em apenas uma semana. Twin Peaks, nesta linha de pensamento, é claramente uma série Outonal. Há pinheiros e há lareiras a crepitar ao longo dos episódios. Há cores quentes assim como há camisas de flanela e canecas de café quente. Talvez não seja a melhor recomendação para as férias, mas é certamente um bom estímulo vê-la no final desta altura, lá para finais de Setembro. Não só confere com a estação do ano como estamos mentalmente rejuvenescidos para adquirir outro tipo de narrativas e representações, coisas no limite do absurdo, na linha entre o verosímil e a descrença.

Saudades daquele genérico e de Snoqualmie Falls!

Inutilidades Audiovisuais: Golden Boy

Golden Boy apareceu no meu computador não sei como. Duvido de aparições divinas – talvez haja gosto mais refinado por altas divindades -, também creio que não foi nem um amigo que me transferiu, nem o gato.

Numa desconfiança que se iria materializar poucos minutos depois, encontro num prelúdio de Golden Boy traços que me iriam, sem quaisquer reações meta-condescendentes, causar uma enorme indisposição estomacal. Abre-se o episódio com bandeira americanas, o chamamento nacionalista e o vómito da música militar que se iria revelar como um leit motif de toda a série. Neste tipo de coisas já se sabe, material de consumo interno, todo o americano gosta, masturbando-se com combinações de bandeiras e louvores à pátria. Reminescência daquele episódio de “Newsroom” quando o avião é salvo e, sem quaisquer tipo de pudor pelo óbvio, há logo ali uma exaltação pelo herói. Típico americano: bate palmas pelo cowboy que furou o índio, baba-se todo com os obus e os tanques que partem em nome da “defesa mundial”.

Golden Boy também é assim, alegoria da defesa nacional. Os casos internos de um polícia, Walter Clarke, que ascende na carreira e passado uns anos tem o cargo de intocável, o mais jovem dos intocáveis. Um exemplo de como o make it happen na américa é caso sério, ainda vivo, sempre imortal por aquelas bandas.

Walter Clarke não tem nada de interessante. Umas pinceladas de dedução afinada com vigor inócuo, tão comum da juventude. Ao seu lado tem um apêndice, também conhecido como: o pior parceiro que as séries já viram, Don Owen.

Owen é a típica figura paterna que chateia só por existir. É o homem que indica o caminho da rectidão mas tem um passado medonho, por descobrir. É um cruzamento entre um pai castrador e um frustrado que se foi convencendo da impotência perante o sistema. Owen é tão péssimo que uma pessoa chega a ser impelida para torcer pelo Arroyo, outro arquétipo de polícia menos justo e mais matreiro que entra em competição com golden boy.

Nestes intermédios de personagens falhadas ainda se junta os seguintes tópicos narrativos: background de família destruída, “aquele” caso nunca resolvido que vai servir de compensação moral mais tarde na trama, chefe de polícia apenas decorativos e (melhor de todas) uma prolepse inicial que começa sempre com uma lição de moral, ensinada pelo decorrer do episódio.

Tudo coisas boas. Mas evitem, caso possam.

Inutilidades Audiovisuais: Gossip Girl

É com uma vontade moderada que vos escrevo. O frio instala-se cada vez mais nos nossos ossos e as ruas preparam-se para uma folia enternecedora, principalmente se esta não fosse comprada pela publicidade que nos vende um estilo de vida, como quem vende castanhas na rua, como se a época natalícia fosse isso.

Esta ponte serve para falar da inutilidade audiovisual desta semana: Gossip Girl Season 6. Se houve série televisiva nos últimos anos que sempre quis vender um lifestyle aos jovens foi Gossip Girl, produzida pela CW Network desde 2007.

A questão de Gossip Girl, no entanto, não é assim tão transcendentalmente má. Aliás, muito pelo contrário. A série sobre os jovens ricos de Upper East Side de Nove Iorque sempre se apropriou de questões comerciais para vender uma história, aliás, fê-lo tanto que no início a série disponibilizava no website a descrição, e respectiva marca, das peças de roupa usadas pelas personagens. Esta ligação de nicho, de vender estilos de vida a jovens deslumbrados, foi decididamente uma questão preocupante, isto porque se os jovens eram comprados desta forma tão volátil então a série podia vender qualquer ideia “não-comercial”, ideológica.

Curioso, isto foi só na primeira série. Gossip Girl, de temporada para temporada foi crescendo em identidade e em género narrativo. Foi perdendo superficialidade e ganhando drama, intenso e gosmento, com 10 plot twists a cada 20 frames de duração.

Foi por isso mesmo que decidi dar um espaço à série produzida pela CW, não só porque as personagens começavam a ganhar relevância mas porque aquela história mutava-se cada vez mais para uma crónica de costumes, tão rica como glamorosa.

Há cerca de um mês estreia a temporada 6 da série. Preocupante a todos os níveis, Gossip Girl parece não estar a conseguir reciclar-se. A história já parece demasiado mastigada, as relações curtas e previsíveis, o ambiente já não convence porque simplesmente não avança. E quando avança, entra em terrenos tão escorregadios como risíveis – relação do Rufus com a Ivy?!

A inutilidade audiovisual deste mês serve como aviso em open letter a todas as séries que já não se sabem recriar. O mais perigoso nestes campos é um produto terminar a sua cruzada em percurso descendente, ou porque os produtores esticaram demasiado a corda ou porque não conseguiram ver que esta já tinha rebentado muito antes. Seja como for, espero ansiosamente pelo desenvolver de Gossip Girl, se houver um qualquer sinal de frescura e vivacidade, serei o primeiro a dar um mea culpa pela inutilidade escrita neste texto.

Inutilidades Audiovisuais: 666 Park Avenue

A espera foi longa e os salgueiros deixam cair as suas folhas nos delicados passeios e jardins. É Outono, praia para trás das costas, mantas e lareiras a prepararem o regresso. Com este quadro crepitante nenhuma outra moldura poderia conjugar melhor que as nossas queridas séries televisivas. De A a B, todas elas estão prontas. Não é que já não estivessem nos meses de calor, mas agora, sobretudo agora, ficar sentado no sofá dá outro conforto.

De parte este início lírico e outonal, remeto-me para o assunto que me apraz com regularidade, a inutilidade audiovisual. Nestas problemáticas, tal como as estações sazonais, há sempre lixo que pede incessantemente pela reciclagem. Este mês, esse lixo chama-se “666 Park Avenue”, episódio piloto.

De terror não sou fã. Nunca fui de facto. No entanto, nunca reprimi qualquer oportunidade de fazer chegar bom terror audiovisual até mim. Não sou fã de American Horror Story mas reconheço engenho no produto, por exemplo. Pelo contrário, sou um fã incondicional de um filme chamado “Rosemary’s Baby” do Roman Polanski. É deste segundo título que começo a mim dissertação. 666 Park Avenue é uma história em quê os moradores de um condomínio residencial – espécie de prédio com serviço de quartos, recepcionista e mordomias -, de seu nome titular da série, fazem um pacto com o diabo, que curiosamente é o diretor desse mesmo condomínio. O drama começa quando um jovem casal, energético e empreendedor, ganha o lugar de “tarefeiros” lá do sítio, em troca de uma residência lá no prédio. Rosemary’s Baby é um filme em que uma mulher engravida do diabo.

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Inutilidades Audiovisuais: Client List

 Olá pequenos ilustres! Tenho-vos a dizer que esta é a primeira crónica que vos escrevo em modo post laborum, ou como quem diz, depois do trabalho.

Depois da rejuvenescência que tive quando me vi sem trabalho escolar nos audiovisuais decidi começar a ver séries novas, para ver se encontrava um produto, daqueles mesmo maus no que diz respeito a coisas más. A minha procura acabou por culminar na minha depressão, fui encontrar uma série que aborda o tema da alcovitice, juntamente com um cast cheio de gajos musculados – daqueles todos pump it up, que nos põe com vergonha de ir a praia, deprimindo-nos, esses pronto…

Encontrei a Client List, a única série sobre prostitutas massagistas que têm prazer  no seu emprego (prazer, pois…), isto porque o urban spa onde elas trabalham, deve ser o único sítio no planeta onde os clientes que querem uma massagem, ao nível dos joelhos para cima e do umbigo para baixo, são homens com corpos esculturalmente definidos, limpinhos, oleados e com uma cara de quem ficou um cheque prenda à beleza. Por outras palavras, esse homens, não definem o estereótipo do homem gordo, nerd, borbulhento e socialmente renegado que procura coelhinhas em bordéis para se satisfazerem a nível sexual.

O resultado é vermos uma bela Jennifer Love Hewitt, protagonista, mãe solteira de dois filhos, que arranja um emprego nesse bordel de esfoliantes corporais, e, apesar de relutante ao início, começa a habituar-se ao género masculino que por ali passa, acabando o primeiro episódio com orgulho no seu trabalho como menina rameira que satisfaz os prazeres sexuais com óleos exfoliantes massagista.

O que me chateia na série é existir um véu de improbabilidade que percorre a série toda. Não só acerca do aspecto masculino que referi, mas também nas situações mais corriqueiras que a personagem passa na sua vida pessoal. Acontecem coisas que nunca aconteceriam, nem quando o porco andar de bicicleta, nem quando a caneta azul servir para matar moscar. Remeto-me para, no episódio dois, a bela da massagista ir falar com a mulher de um dos homens que ela atendeu e, em poucos segundos, abraçarem-se num momento de introspecção matrimonial.

Deixem-se impressionar pela série, pela falta de consultadoria que esta teve e cheguem a mesma conclusão que eu cheguei: mas que raio de canal é o Lifetime Network?!

Inutilidades Audiovisuais: How To Be a Gentleman

Devido à força de X-Files, a Inutilidade Audiovisual foi atrasada uma semana. Mas meus caros, deixem o choro e vão mas é ler os artigos postados sobre o assunto esta semana, que já se faz tardia.

Voltando ao assunto, que deve ser por isso que cá pararam, trago-vos uma opinião sensaborona e sobretudo pouco determinista de uma série (chamam-lhe isso chamem…) que me desiludiu bastante, assim para à escala do muito. Como é meu apanágio, antes de ter sido lançada para o ar estava cheio de expectativas. A história parecia-me bastante engraçada e tinha pontos por onde se pegasse – a CBS lá pegou por alguma razão não é?

Esta sitcom, para quem ainda não ouviu falar, retrata uma amizade entre dois colegas de escola. O primeiro é um colonista bem educado mas assim para o cromo, o segundo é um veterano de guerra assim para o rude. O segundo ajuda o primeiro no treino físico e este ajuda o segundo a ser um Gentlemam. So far so good.

Depois disto, os dados.How To Be a Gentleman foi para o ar às quintas feiras com a estimativa de 13 episódios. Pouco tempo depois, esse número foi cortado para 9. Como já tinham ido para o ar 2 – repito, somente dois – os restantes 7 foram transpostos na grelha para Sábado ao fim da tarde. Isto depois do pessoal da CBS ter achado que uma repetição de The Big Bang Theory encaixava melhor no espaço ocupado por HTBG – até uma 5ª repetição de TBBT encaixava melhor. Acabou com apenas 1 episódio lançado nesse seu novo horário devido à rerun imprevista de Two And a Half Men. Os restantes episódios vão começar a ser emitidos HOJE na CBS, dia 26 de Maio. Digam lá a verdade, nunca ninguém sentiu esta paragem pois não?

Agora os factos. How To Be a Gentleman provou ser uma das piores sitcoms já feitas. Os momentos de humor não fazem rir, as running gags são estúpidas, os cenários são um atentado à cenografia amadora e, mais importante do que tudo, os dois atores apenas não funcionam juntos, são maus nos seus papéis e nenhum dos dois cria algum tipo de epatia, nem através da comédia nem através da construção da personagem.

É apenas mau. Podem comprovar isso fazendo o download de qualquer episódio e dando a vossa opinião.

Até o David Crane e a Marta Kauffman se riram com o 4.3 do IMDb.

Até à próxima meus amigos.

Inutilidade Audiovisual #3

Bom dia meus pequerruchos! A batalha foi árdua para vos trazer mais uma crónica. Pelo meio dos infortúnios e dos atarefados costumes, estava muito decidido a escrever sobre um tema que me deixou arreliado.

Há realmente coisas que eu não sei porquê que acontecem. Não sei se pelo argumentista ter um défice mental acelerado, se por o realizador gostar de comer doses de sal de carbalítium ao jantar ou simplesmente porque a produtora quer assassinar a série, então decide lançar o cliffhanger mais merdoso e indeciso de sempre.

Até o Neal fica estúpido.

White Collar, último episódio que foi para o ar. Season Finale.

Desde o início da série que eu tenho sido dos mais acérrimos defensores. Acho que a história, apesar de não ser nova, está extremamente interessante, os atores têm uma óptima intrusão e a estrutura narrativa tem um bom subplot. Isto é, existe a história do reincidente meliante que ajuda o FBI a resolver casos, mas, juntamente com essa linha narrativa, há um subplot que explora uma história paralela e continuamente trabalhada, episódio após episódio. É a existências destas duas linhas narrativas que, no meu ponto de vista, tornam a série tão interessante, isto porque, séries como “Game of Thrones” (olha a pilada para o próximo mês…), segundo a eloquência de Slavoj Zizek, têm o mal de ter as linhas de ação pouco definidas (eu depois explico melhor este ponto).

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