The X-Files – A revolução genética da televisão (por António Guerra)

Acho que é claro dizer-se que, na televisão, existe um pré e um pós The X-Files. Apesar de não ter assistido à série (por agora), acho que quem se envolve minimamente em séries sabe do impacto que a mesma teve na televisão. Desde o fim de The X-Files, e mesmo um pouco antes de tal, a realidade televisiva mudou. As séries que ficam na memória têm tal impacto: fazem com que o futuro seja por si condicionado.

Peguemos num exemplo que nesta semana termina: House. E questionem-se “Existiria House sem The X-Files?”. A resposta é não. Tal como muitas outras séries, entre outras Lost, que marcou também uma geração e que se procura uma replicação todos os anos. The X-Files abriu/modificou na televisão dois mundos (pelo menos) que existiam antes, mas que deixaram de ser a mesma coisa: o típico procedural, que agora enche parte das grelhas da televisão (ou toda, se falarmos da CBS) e a envolvência da ficção cientifica (FC) em canal aberto.

Comecemos pela segunda: a ficção científica, antes de The X-Files, caracterizava-se essencialmente por séries espaciais (ou pelo menos as que ficaram na memória). Por séries onde o ser humano pegava na sua nave espacial e viajava para recantos encobertos. Star Trek deve ser a mais recordada, mas (a antiga) Doctor Who também se pode inserir nesse lote, onde muitas outras entravam. The X-Files aposta no espaço, mas modifica o local: a base da acção é o planeta Terra, e temos a visita dos aliens. Claro que o mesmo tema já tinha sido abordado, mas nenhuma outra série teve tanto impacto como The X-Files teve. Primeiro porque teve uma envolvência com o espectador nunca antes vista. E, depois, porque conseguiu aprisionar os espectadores com as novidades que trouxe (exemplo é a caracterização dos bicharocos espaciais).

Mas não era de tal que prometi escrever. A partir do momento que The X-Files mostrou-se ser eficaz como produto televisivo, a televisão foi embebida em FC. Podia dizer mil e uma séries, mas retrato aquela que agora é utilizada como novo padrão para séries de sucesso: Lost. Lost não teria existido sem The X-Files. Isto porque a série da Fox permitiu que o mistério ganhasse importância na televisão (para além da ciência, que também possuem as duas séries mencionadas…mas não vamos por aí).

Lost é um filho bonito do pai feio que é The X-Files. Lost é muito mais emblemática, não tem tantos episódios mortos (refiro isto pelo que conheço de Ficheiros Secretos…) e é um produto que, em termos de personagens, consegue ser muito mais desafiante. Não que The X-Files seja má, mas apenas não é uma série que eu olhe e ame. Mas as portas que abriu fizeram com que a televisão nos desse excelente produtos.

Outro exemplo é como se encaram os procedurals. The X-Files veio mudar um pouco a mentalidade de como se escrevem procedurals. Antes de tal, a vida da série que vivia de casos era muito sobre a acção. Depois, a envolvência da ciência tornou-se algo natural. CSI deu o seguinte passo, mas The X-Files entreabriu a porta que nos dá mil e uma séries seguintes. Até House nasceu de tal.

Alguma vez houve uma série tão médica, tão pormenorizada com os conteúdos que colocava antes do nascimento de Ficheiros Secretos? Não. Tudo porque, para além da introdução da Internet, The X-Files introduziu a ciência nos procedurals. Como dizia há uns dias o Ricardo Araújo Pereira, na sua época os bandidos eram tratados ao pontapé, agora são tratados por cotonetes.

Nada seria possível sem uma série como The X-Files. Talvez se não existisse tal, a televisão mudava também. Mas, o que fica para o futuro, é que The X-Files, para além de ser uma série memorável, é uma série que abriu uma série de possibilidades. E, para mim, é essa a sua maior importância.

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