The X-Files e a mutação das personagens do século XXI (por Miguel Bento)

No início dos anos 90 quando os The X-files surgiram apanharam meio mundo de surpresa, uma série sobre dois agentes do FBI que investigavam casos estranhos que ninguém sabia explicar. Pegando nos nossos medos e cultos mais estranhos a série desmantelou ao longo de 9 temporadas as bizarrias mais curiosas. Mas até ali o conceito de agentes do FBI estava envolto em tramas políticas e nem eram propriamente o tipo de figuras mais agradáveis de ver na TV, normalmente até eram sinistras. E de facto a série abriu caminho a que este sector da segurança americana passasse a ser um dos elementos de foco principal em diversas outras séries. Se até certa altura eles eram personagens cinzentas e quase sem alma que procuravam bandidos, Mulder e Scully deram-lhe finalmente uma alma e o mundo passou a ver com outros olhos estes agentes.

Passados 10 anos sobre o fim da série continuamos a não ficar indiferentes à presença do FBI em muitas séries e isso deve-se em primeiro caso às duas personagens principais. Mulder o que acreditava e Scully a céptica que via tudo com o olhar científico. Além destas duas personagens muitos outros agentes passaram pela série, tal como Skinner, o chefe que equilibrava os opostos e até figuras de topo como o Smoking man que representava todo o poder manipulador que instituição podia ter. Mas e se olharmos para estas e outras personagens e para as séries que precederam? É certo que The X-Files continua a ser a grande inspiração para séries de ficção científica, onde o caso mais recente é Fringe. Não há como escapar, tudo o que envolva grandes conspirações e o FBI tem nem que seja de forma ligeira um dedo de X files. Não haverá certamente muitos criadores e produtores de séries destas que não tenham aprendido algo com estes agentes.

A primeira ideia que surge vinda da série é a dinâmica da dupla. Antes e mesmo durante X files as séries que tinham duplas de agentes eram sempre muito pouco sexuais. Podia haver algumas tentativas de procurar aproximar mas o facto de as personagens serem muitas vezes ‘quadradas’ retirava qualquer sensualidade as relações entre eles. Com Mulder e Scully isso mudou, desde o início que eles se mostraram demasiado dependentes um do outro, mesmo quando a certa altura sabemos que Scully estaria a controlar Mulder, a amizade entre eles sempre foi mais forte e mais tarde transformou-se naquela relação difícil que quem viu a série conhece.

Mulder era o agente perturbado pelo rapto da irmã, naquilo que ele acreditava ser uma conspiração de altas patentes, e se por um lado ele tinha razão por outro a sua evolução mostra que a certa altura ele já não acredita que pode lutar contra isso. Já Scully era apenas a médica que auxiliava Mulder e que sempre colocava tudo em causa, não era crente porque tinha o espirito científico apurado. Ela inversamente a Mulder acaba por acreditar e não desiste de lutar mesmo quando contra ela tudo cai. E esta série não se pode dizer que alguma vez se perdeu no caminho, sempre houve uma evolução todas as temporadas e cada caso servia para nos emocionar e torcer pela dupla. Quando olho para o que veio depois, estas duplas são talvez o elemento mais característico do que foi ‘pescado’ da série. CSI foi das primeiras a conseguir sucesso com isso, a dupla Grissom e Willows, embora não chegasse ao nível de X files, foram uma dupla de sucesso e não fosse uma série muito fechada sobre casos certamente teriam procurado relacionar mais as personagens, mas a química estava lá. A dupla de Fringe, Olivia e Peter é novamente uma colagem do que se passou em X files. Aliás Fringe pode ser considerada sem grande dúvida a sucessora de X files, das tentativas feitas foi a única a conseguir esse galardão. E mais duplas haveria para falar mas o texto vai longo, penso que a ideia se entende.

A marca do chefe personificado por Skinner é outro dos elementos que enchem a história, dividido sempre entre os interesses dos poderes superiores e a defesa dos seus agente é uma personagem mais típica em muitas séries e que serve de equilíbrio. Broyles em Fringe é um Skinner sem dúvida alguma.

No outro lado temos os vilões e foram tantos em x files, mas há um que merece todo o destaque, Smoking Man. A figura sinistra que tudo controlava e que tinha uma agenda própria que ia além do FBI. Curiosamente a personagem é tão marcante que nem encontro muitos similares noutras séries conhecidas, mas a ideia de alguém desta dimensão foi sendo aproveitada, lembro-me de Prison Break usar esta ideia no final, Flashforward também e claro Fringe com o seu David Robert Jones (talvez o mais próximo do Smoking Man). Mas na linha de vilões e mesmo casos da semana Supernatural é claramente a série que mais ‘copiou’ The X-files, a quantidade de episódios que homenageiam a série é imensa. Os monstros da semana são uma invenção de X files (talvez do Twiligth Zone, mas percebe-se a ideia) e Supernatural por mais que se critique por ser um chick flick é das séries posteriores a que mais tirou de The X-Files a parte boa, mesmo sem aliens.

E por falar em aliens, essas personagens míticas que sempre acompanharam a série foram vezes sem conta aproveitadas noutras séries, incluindo Roswell, Invasion e The Event , todas elas sucumbiram rapidamente, só a primeira durou três temporadas e acabou por razões que ainda hoje não se explicaram.

Este é o universo criado por The X-Files e muito mais haveria para falar, toda a mitologia, todas as pequenas personagens e todo um universo de conspirações fazem de The X-Files mesmo passados 10 anos como uma das grandes séries de todos os tempos. Outras séries conseguiram feitos parecidos como 24, CSI e Lost, mas será que mesmo essas não têm um pouco da liberdade criativa e da imaginação que The X-Files permitiu na TV americana? Certamente que sim.

Para quem quiser continuar a acompanhar o Miguel, tem a sua crónica mensal aqui no Imagens Projectadas como também no seu blog, o 42Minutos

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