Programas Mortos: Programas Zombies, o spin-off.

Há excepção de Made In Jersey e Animal Practice, este ano as networks decidiram manter no ar os seus monos. Programas que noutras temporadas teriam sido arrancados do calendário, ou no mínimo teriam a produção suspensa pelo 6-8 episódio, agora permanecem no ar com a garantia de 13 episódios.

Não é novo ver séries que as baixas audiências condenavam permanecer no ar. Isto sucede quando, por exemplo, a actriz principal é sobrinha do dono do canal, como no caso de Fringe, mas o mais comum é ter a ver com contratos de syndication. Séries à beira de serem vendidas para repetição em canais de cabo vêem a sua vida prolongada artificialmente por uma temporada ou mais.

O número mágico para a venda para os canais de cabo costumava ser 100, o que corresponderia a pelo menos 5 temporadas de 22 episódios. Actualmente é 88, exactamente 4 temporadas de 22 episódios. Daí que, apesar dos números desastrosos que tem, seja de esperar que Nikita seja renovada para uma quarta temporada, assim como Raising Hope. Em certos casos o lucro dos contratos de repetição é suficiente para justificar mais temporadas de uma série que quando exibida pela primeira vez em canal aberto tem audiências que justificam o cancelamento. Foi o caso de Wings, que chegou ás 8 temporadas quando devia ter sido cancelada à sexta. Foi o caso de According to Jim, que durante 8 anos desafiou todas as previsões de cancelamento eminente. É o caso de Rules of Engagement, que vai na sétima temporada, ainda que encurtada.

Isto é normal. O que não é normal, é a quantidade de séries que em outros anos seriam ignominiosamente arrancadas do horário continuarem no ar. Noutra temporada qualquer, Mob Doctor, Partners, Last Resort, 666 Park Avenue e Emily Owen, MD teriam no mínimo parado a produção, se é que ainda estivessem no ar. Á medida que esta temporada progride torna-se evidente que todas vão ter 13 episódios produzidos, no mínimo, e que todos serão emitidos.

Depois de vermos as networks renovar programas que não o mereciam, para temporadas finais encurtadas porque saia mais barato que fazer e promover uma série nova, casos de Fringe, Private Practice, Body of Proof e Scandal, vemos que as networks descobriram que sai mais barato manter os monos no ar que lançar uma série nova sem promoção adequada no seu lugar.

Antes de quase 50% dos americanos terem DVR, as networks podiam contar com repetições dos seus grandes êxitos para tapar buracos deixados por programas arrancados do horário prematuramente ou tinham em reserva séries como According to Jim ou Rules of Engagement com episódios suficientes ordenados para poderem ocupar os buracos.

Com o advento do DVR já não é possível contar com as repetições mais populares obterem audiências que justifiquem tomar o lugar de originais. As pessoas guardam os seus episódios favoritos para rever quando lhes apetecer e não têm de esperar que sejam repetidos. Para não falar de todos os outros meios actualmente disponíveis para ver um episódio perdido, legais e ilegais. Actualmente as repetições das séries mais populares fazem pouco melhor que as séries que vão substituir. Uma vez que que os episódios que se repetem custam zero, ainda fazia sentido se não fosse o facto que cada network apenas poder exibir um episódio 3 vezes sem incorrer em custos (licenciamento, resíduos para escritores e actores). As séries tem 22 episódios para ser exibidos ao longo de 36 semanas e nas 16 semanas de verão, e tapar buracos ao sábado, se não vão melhorar as audiências talvez não valha a pena incorrer em custo acrescidos. Custos a acrescidos que serão mais altos quanto mais velho for o programa.

Outro motivo para tanta cautela é o facto que os níveis de médios de audiências actuais o dinheiro não é tão abundante como no passado e já não há tanta margem de manobra para arriscar num elevado número de séries e na sua promoção. Não há séries para sacrificar lançando com pouca promoção na esperança que no mínimo garantam 6 semanas de audiências acima da série que vão substituir.

Quando se olha para as séries de midseason disponíveis para cada canal aberto, vemos que este era o plano desde o início. Não há folga ou margem de manobra prevendo a substituição de falhanços. Apenas a NCB tinha margem de manobra ao escolher estrear as comédias de sexta muito mais tarde, para o caso de serem necessárias para tapar um buraco. Whitney já substitui aquele dejecto televisivo que era Animal Practice.

Bem-vindos à era dos Zombies televisivos iniciada com Pan-Am, que apesar dos ratings miseráveis exibiu os 13 episódios. O que é simpático para os poucos fans dessas séries que podem ver todos os episódios produzidos. O lado negativo é muitos acreditarem que porque não foram arrancadas da programação têm hipótese de ser renovada. Não têm, é um walking dead, um spin- off de renovar séries para uma temporada final curta.

Enquanto acabei de escrever esta crónica, à cerca de um mês, vi que o Vulture publica um artigo exactamente com o mesmo tema, e ainda outra explicação. Vale a pena a leitura.

PS: Nota caucionária. Se por acaso vos der na veneta ver uma série nova na noite de estreia e dizer no twitter que não vão continuar a ver, correm o sério risco de ter o criador da série a pedir-vos para não desistirem. Lá vou ter de ver mais 3 episódios de 1600 Penn…

Programas Mortos: Olhó morto fresquinho – Emily Owen, M.D.

Com a primeira série oficialmente cancelada, paz à alma de Made In Jersey, vamos passar directamente para a mais recente candidata a cancelamento, Emily Owen, M.D. Até porque são a mesma série em enquadramentos diferentes e com actores diferentes.

Emily Owen, M.D. é muito mais interessante que todas as outras candidatas que se perfilaram ao longo deste mês porque se trata da mais escandalosa e descarada tentativa de tentar copiar o formato de Grey’s Anatomy. Neste caso levada ao extremo de parafrasear uma das frases emblemáticas usada por Shonda Rhimes para descrever o seu programa, “highschool with scapels”. Em Emily Owens, M.D. os personagens repetem 3 vezes que o hospital é como o secundário.

Não o primeiro caso de tentativa de clonar o sucesso que ainda Grey’s Anatomy. De repente lembro-me de The Deep End, onde os médicos estagiários são substituídos por advogados estagiários. A tentativa de Shonda Rhimes de repetir a receita, só que transplantada para selva, que foi Off The Map. Ou mesmo a comédia de Mindy Kalling, para quem se lembrar que Grey’s Anatomy no seu começo tinha humor. Parece que a Fox vai fazer a sua tentativa de recriar o formato, desta vez num porta-aviões!

Todas a seguem a mesma protagonista lamurienta no seu embate com o mundo profissional ao mesmo tempo que gerem a uma vida amorosa complicada. A primeira questão que se põem é porque é que a protagonista é sempre lamurienta? Porque é a maneira mais fácil de conferir uma camada de complexidade a personagens que não tem nenhuma e sem camada de complexidade artificial passariam por tolinhas. Claro que estavam condenadas a falhar.

Como, então sobreviveu Grey’s Anatomy? Porque embora protagonista fosse lamurienta acontece-lhe, porque estava bêbada, não por acto de vontade, algo de interessante no primeiro episódio. Dormiu, sem saber, com um superior hierárquico no novo emprego. Esta história deu para encher os nove episódios da temporada inaugural, coadjuvada por personagens secundários bem mais interessantes que protagonista. Nas variantes que falharam, não só a protagonista é chata e lamechas como Meredith Grey, mas todas as outra personagens também são chatas e lamechas.

Se isso não bastasse, no primeiro episódio de cada um dos exemplos não se passa rigorosamente nada de interessante. O primeiro episódio de cada uma destas séries é gasto em pseudo-casos que servem apenas para apresentar os personagens e evitar que seja tudo feito através de exposição pura. Parece na variante com um porta-aviões da Fox teremos um crime para resolver enquanto a personagem feminina luta para fazer malabarismos entre a sua vida profissional e amorosa. A ver vamos.

Enquanto escrevia esta crónica é anunciada a segunda série cancelada, Animal Practice. O espanto é como esta porcaria chegou aos ecrãs. Animal Practice é tão inexplicavelmente má que não merece autópsia ou enterro. Vai directa para o aterro municipal. Como é possível falhar uma série com animais? Bastava dar-lhes mais cenas e menos aos personagens humanos. Resultou com Two Broke Girls. Nos primeiros episódios, quando era preciso diluir a agressividade das personagens, o cavalo Chestnut fartou-se de aparecer.