Agora sim: Adeus, Sopranos.

Na minha anterior crónica, como parte da rubrica “Séries para o Verão” (nomeada para os TCN Blog Awards), escrevi sobre as séries que me propus ver: Sopranos e Seinfeld. Acontece que desde então, do mês de agosto, vi apenas uma delas, Sopranos, que terminei a semana passada. Há tanta coisa que se pode dizer de Sopranos e mesmo assim penso que não é o suficiente para descrever uma das melhores séries televisivas de todos os tempos.

sopranos

The Sopranos que esteve no ar entre 1999 e 2007, segue a vida de um chefe da Máfia, Tony Soprano enquanto ele lida com problemas na sua vida pessoal e profissional. James Gandolfini (que faleceu no passado mês de junho), interpreta o chefe da máfia italiana enraisada em Nova Jersey, nos EUA. Tony é uma personagem muito complexa, com um grande conflito interior que se divide entre ser um bom homem de família e a sua reputação e responsabilidades de ser um chefe da máfia. Tony é duro, sem escrúpulos e exigente, mas é também um homem tradicional, que quer garantir uma boa vida à sua mulher e aos seus filhos.

Logo no seu início, vemos Tony numa consulta psicológica, levantando um pouco o véu daquilo que se seguirá ao longo das 6 temporadas. A relação de Tony e Jennifer Melfi, a sua psiquiatra, é fantástica. Perante a doutora Melfi, num contexto mais pessoal, Tony revela-se enquanto o ser humano imperfeito que é: ansioso, depressivo, vulnerável, charmoso, cruel, vingativo e traumatizado. Mas Tony Soprano não está sozinho, porque “nenhum homem é uma ilha isolada”. Por um lado, existe a sua vida familiar, composta pelo seu tio, a sua mãe, uma das suas irmãs, os seus primos, e o núcleo principal, a sua mulher Carmela (Edie Falco) e os seus filhos. Por outro, há a sua vida profissional, constituída por um grupo de homens que Tony chefia e que levam a cabo os seus negócios sujos.

Embora Tony seja a personagem principal, os restantes elementos que constituem  a série têm o seu tempo de antena e uma oportunidade para “brilhar” (embora de forma desequilibrada, pois é um elenco vastíssimo). São na sua maioria igualmente personagens complexas, com as suas qualidades e os seus defeitos. Os capangas de Tony, por exemplo, são desprezíveis, rudes, hipócritas, ignorantes, egoístas, misóginas, racistas, violentas, sem remorsos. “Sopranos” oferece à maioria, no entanto, uma dimensão tão humana quanto é possível. Por detrás destes vilões, estão seres humanos, com valores tão discutíveis quanto as suas atitudes, é verdade, mas é possível ver as suas motivações, as suas ambições, os seus medos, as suas qualidades e fraquezas. Podemos ver as suas relações familiares, amorosas, profisssionais. Nem sempre é possível concordar ou aceitar as  suas decisões e atitudes, mas esta é a “magia” de Sopranos. Permite mostrar um lado complexo de personagens que seriam à partida apenas vilãs, sem grande profundidade, só dedicadas a um único objetivo – prevalecer sobre o bem.  Sopranos mostra as personagens como elas são: odiamo-las, nem desculpamos as suas atitudes, mas são personagens “reais”. Esta valência de análise psicológica é o que torna Sopranos uma série magnífica.

The-Sopranos

No entanto, estas personagens evoluem, aprendem e desaprendem, ganham novos saberes, não estão paradas no tempo. Debatem-se sobre o que está certo e o que está errado, embora muitas vezes o que é socialmente correto fique de lado e sujam as mãos, sendo que a violência física e psicológica prevalecem. Não procuram ser aceites na sociedade nem sempre se redimem. Apenas pretendem sobreviver com tudo o que isso acarreta, sacrificando os seus princípios a favor dos seus interesses materialistas. Existem outras (imensas) histórias e personagens que se intersectam com o núcleo principal, o que demonstra o quão grande e complexo é o universo de Sopranos.

The Sopranos não é apenas sobre a máfia. É uma série que retrata também valores familiares, amizade, amor e lealdade. Discute também questões como terrorismo,  desigualdades sociais, justiça, droga, racismo, entre tantos outros temas, que só oferece à série um carácter ainda mais real.

Tanto se falou do final da série, nomeadamente da última cena de sempre da série, que causou imenso burburinho, junto dos espetadores e da crítica. Não vou aqui revelar o final, se o leitor não o conhece (pouco provável). As útlimas cenas são, sem dúvida, um momento de grande expetativa, o que acontece em qualquer final de série ou filme (não devo ser a única que fica nervosa com seasons/series finales). Os últimos episódios são sempre pesados por grandes acontecimentos ou até mesmo por momentos mais introspectivo, de reflexão. Sempre aconteceu isso em The Sopranos, ao longo das 6 temporadas e na temporada final, dividida em 12 + 9 episódios separados com quase um ano de intervalo, não é excepção. Ainda sobre o episódio final, existem várias teoria sobre o que aconteceu a Tony Soprano, mas penso que cabe a cada espetador fazer a sua própria interpretação do mesmo final sendo coerente com aquilo que a série apresentou ao longo das 6 temporadas. O final da série representou também o final de uma era televisiva, que Sopranos definitivamente marcou.

Recomendo a série, sem qualquer dúvida. Tem interpretações fantásticas (James Gandolfini, Edie Falco, Michael Imperioli, Drea de Mateo, etc.), ótima escrita, boa banda sonora, alguns momentos cómicos.  É, claro, preciso estomâgo para lidar com cenas mais violentas, mas quem gosta de dramas com grande carga psicológica, gostará de Sopranos.

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