Dupla Perspectiva #2 – Game of Thrones

duplaperspectivaPor Sandra B. e Vítor Rodrigues

Depois de uma pausa de férias quase forçada, o regresso do Imagens Projectadas também é feito com novos espaços de opinião. Um desses é o “Dupla Perspectiva”, que terá, todas as semanas, duas pessoas a comentar uma série, partindo de 3 tópicos. Nada melhor que um confronto de ideias para apimentar o domingo. Não só a brasileira do Big Brother consegue fazer isso…

Ao contrário do prometido no post anterior, o João Barreiros teve uns problemas informáticos. Para o substituir, ao qual muito agradeço por ter convidado mais tarde, está uma das autoras aqui do blog, a Sandra. E tanto ela como o Vítor Rodrigues, do TVDependente, foram desafiados a falar da série que mais paixões atrai nos últimos tempos: Game of Thrones. Inicialmente cada um explicará como se liga à série, no tópico A Song of Fire and Ice, falando das Melhores Personagens vs. Piores Personagens que a série nos traz, e acabando com as Expectativas sobre o que resta da temporada.

A Song of Fire and Ice

Sandra. B – A saga em livro chama-se A Song of Fire and Ice, A Game of Thrones, é o título do primeiro livro da série. A escolha dá que pensar, terão os criadores da série temido não ultrapassar uma temporada? Terão temido tentar os deuses dos programas de televisão com um título que indicasse mais temporadas? Ou foi apenas o departamento de marketing a dizer que a o título era mais apelativo?

Seja como for, o primeiro episódio foi tão bom que não consegui esperar pelo segundo, e tive de ler o livro. Antes da primeira temporada ter terminado, tinha lido todos os livros da saga publicados até à data. Coisa em que não fui a única vendo a subida meteórica nas listas de vendas dos vários volumes nos Estados Unidos. Foi penoso esperar três meses pelo quinto volume da saga. Sempre foi menos que os sete anos que esperaram os leitores fieis de George R. R. Martin, eu sei.

O facto de ter lido todos os volumes até agora não estraga o apreciar da série, acho que até me dá mais tolerância para coisas que irritam as pessoas que não leram a série. Nos livros, Martin semeia para colher mais tarde e os primeiros capítulos, como os primeiros episódios da temporada são lentos e parecem saltar de um lado para outro sem motivo aparente. Contudo, há medida que se avança nos livros e na série tudo parece fazer sentido. Outro motivo que torna os primeiros episódios das temporadas disjuntos, é o nos livros não haver um narrador omnisciente. Cada capítulo/cena contém apenas informação que as personagens na cena podem saber.

A série respeita os livros no que é importante e no tom. O enredo, urdido como uma teia de aranha de Varys, está nos livros. Libertando os guionistas para uma tarefa apenas, se bem que árdua, que é fazer encaixar as histórias num guião coerente de 60 páginas por episódio.

Quando a série começou, tendo em conta que li o primeiro volume entre o primeiro e o segundo episódio, temi que, conhecendo os estereótipos e idiossincrasias das séries americanas, não houvesse coragem para seguir fielmente os livros. O primeiro teste seria a morte de Eddard Stark. Havia motivo para temer, Sean Bean tinha sido usado como a cara principal da nova série, e quem tem a coragem de matar o personagem principal na TV americana? Jurei que se o Stark fosse salvo deixava de ver, pois sabia que a partir daí teríamos uma bastardização do original, passada pelo passe-vite da falta de imaginação da maior parte dos executivos das televisões americanas, que querem mais do mesmo só que pintado de outra cor.

Tento lido os livros todos e os 2 capítulos entretanto divulgados do que segue é me difícil falar do enredo da série. Eu sei o que vem a seguir, porque a morte de Ned Stark provou-me que os criadores vão ser fieis aos livros. Se não há surpresas, há pequenos motivos de irritação. Numa adaptação quase perfeita, deixaram cair a bola num detalhe os barcos dos da Ilha de Ferro. Nos livros o termo usado é “longboat”. Não é um termo qualquer na língua inglesa: é usado para descrever um barco aberto com oito a dez remadores e “longship” é usado para descrever os barcos a remos e abertos dos Vikings. Na série deram-lhes barcos que estariam em casa a dar a volta ao Cabo das Tormentas com Vasco da Gama ao leme. Barcos totalmente inadequados à descrição do livros que explicitamente apontam para barcos do tipo drakar, que podem navegar numa profundidade de um metro.

A outra coisa que quem apenas vê a série sente é a falta de pontos de referência geográficos. Temos a noção e Norte e Sul, mas pouco mais. Mas esse é também um problema dos livros que seriam impossíveis de seguir sem o mapa nas páginas iniciais de cada volume e quando esse é curto há mapas mais detalhados on-line.

Usando narrativa do ponto de vista do personagem central de cada cena, Game of Thrones vai depender tanto do enredo como das personagens. E em Game of Thrones os erros e fraquezas de cada personagem movem a história. Cada engano, cada momento de distracção, cada momento de confiança ganho por uma pequena vitória é punido cruel e ferozmente. É uma história de personagens que cuja única esperança de redenção é a morte, e por vezes nem a isso têm direito.

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Vítor R. – Antes de mais é importante dizer que sou um ávido devorador da série, mas não dos livros. Após o conselho dos mais chegados, no que ao vício das “Crónicas do Gelo e do Fogo” diz respeito, decidi começar a saga literária e as espectativas confirmam-se: é muito bom! No entanto, penso que ocorre um fenómeno curioso no que aos fãs diz respeito: a série tem uma propulsão maior devido aos seguidores dos livros, mas parece-me serem esses mesmos os que mais encontram atrito com a mesma. Os livros, da saga e não só, transmitem uma profundidade, uma coerência, um seguimento e uma envolvência que não é possível transmitir em série. Pegando no exemplo da primeira temporada, estamos a falar de 10 episódios de 50 minutos, para conter o equivalente a 700 páginas de livro. A riqueza das descrições, dos nomes, das inúmeras personagens (ainda mais do que na série) oferecem uma introspecção que não me parece ser possível representar em imagens, muito menos numa temporada de 10 episódios, limitada por uma questão de orçamento.

 Então perguntam vocês, porquê ver a série? Porquê perder minutos das nossas vidas a ver um conjunto de frames quando podemos estar junto à lareira, com um copo de vinho, uma manta de lã e um lavrador aos nossos pés, a deliciar-nos com a riqueza literária de Westeros? Na verdade não encontro qualquer motivo para vos impedir de desfrutar um cenário tão bom. O meu conselho passa pela experiência de ambos…

Divido se deverão ler os livros primeiro ou ver a temporada antes da leitura, deixo ao vosso critério, aconselho que façam ambas. Se os Dragões e a Muralha forem realmente o vosso Ferrero Rocher. A série, que é disso que estamos a abordar, explora com mestria todos os aspectos que o livro não nos pode fornecer. A possibilidade de vermos um excelente actor a debitar as nossas expressões favoritas, a dar vida a uma personalidade que adoramos, dar cara aos amores/ódios favoritos, ou ver o que a equipa de efeitos especiais consegue fazer com um Walker é uma grande experiência.

 Se acham que são daqueles que não são capazes de evitar comparações entre os dois métodos, façam como eu, leiam os livros após a temporada. Prometo-vos que vão descobrir mais sobre as personagens e sobre o mundo que as rodeia e que não vão sentir o sentimento de repetição. Podem até saber o desenlace, mas isso é apenas uma porção da boa experiência. É mais ou menos uma opinião geral de que o terceiro livro, “A Storm of Swords”, no qual se baseia esta terceira temporada, é o melhor livro da saga até ao momento. Estou mortinho por chegar lá e devora-lo, até isso acontecer, terei de me “contentar” com uma temporada que começou muito bem…

Melhores Personagens vs. Piores Personagens

Sandra B. – No que a série é particularmente feliz é no casting. O casting das personagens não ofende os livros, ao contrário do casting dos barcos. Se querem um exemplo de um casting horrível de um livro, é o caso do filme Feira das Vaidades, baseado no livro com o mesmo título de Tom Wolf.

Talvez pudessem ter procurado um pouco mais para Sansa, que não é a mais esperta das criaturas, mas nada na história aponta para aquela expressão bovina que a actriz adopta para transmitir isso e que não muda mesmo quando a personagem tem um raro raio de compreensão.

As melhores combinações personagem/actor são Tyrion e Arya. Daenerys e o seu cabelo oxigenado só entram no lote dos meus favoritos a partir da segunda temporada. Mas isto de ter personagens favoritos em Game of Thrones não se recomenda. Eles podem morrer a qualquer momento, ou pior desaparecer da história durante longos capítulos, até por livros inteiros.

Além do que a todo o momento nos podem irritar. Porque, embora não havendo narrador omnisciente, o leitor/espectador quase que é, e não é pouco frequente termos de assistir ao nossos personagens favorito fazer algo que sabemos que é a mais pura das tolices. Arya, por exemplo, a insistir em ir para Norte, quando a mãe e o irmão mais velho estão a menos de uma semana para Leste. Ela não sabe, mas nós sabemos e não deixa de irritar. Não tanto quanto no Senhor dos Anéis o grupo ter optado por levar 3 livros a chegar ao destino, a pé, quando ninguém pensou que podiam ter ido nas águias que os salvaram no primeiro volume, mas irrita na mesma que raramente as personagens perguntem por novidades a outras. A história depende de uma incrível falta de curiosidade de diversos personagens.

Vítor R. – Nunca um trabalho foi tão difícil: escolher as minhas personagens favoritas num leque tão abrangente. Como tal, a lista é um pouco extensa:

Tyrion Lannister – Peter Dinklage é claramente dos expoentes máximos da série. As suas expressões, acompanhadas por uma personalidade que George R.R. Martin concedeu a Tyrion, tornaram-no num favorito de todos. Embora com menos tempo de antena que na season anterior, continua excelente em todos os planos que aparece.

Catelyn – Uma das minhas favoritas. Perdida pela dor provocada por tantas mortes Stark, consegue ainda assim manter uma força e carisma notórios. Destacando a conversa com a esposa do filho Robb, a verdade é que Michelle Fairley, com o seu sotaque, nunca falha quando é chamada à frente.

Daenerys – Com uma primeira temporada forte, e uma segunda muito mais fraca, Daenerys torna-se novamente no porta-estandarte da série. É impossível ficar indiferente ao quarto episódio e ao seu final, que transformaram esta “menina” numa rainha. Emilia Clarke esta muito bem no seu Valyrian e tem de melhorar apenas algumas expressões faciais mais forçadas. “Dracarys” é a palavra da temporada até ao momento.

Jaime Lannister – Com a imagem manchada desde que atirou o pobre Bran da janela, no piloto, aos poucos Jaime tem conquistado o coração dos espectadores. Há 17 episódios que é arrastado, mutilado, agredido, e mesmo assim os seus traços de personalidade mantém-se fieis. O momento com Brienne (outra personagem que merece destaque) no quinto episódio é de uma entrega fantástica por parte de Nikolaj Coster-Waldau e que merece todos os elogios.

Lord Varys – Outra favorita. Adoro aquelas personagens que controlam tudo e todos atrás do pano. Varys é um personagem brilhante, não só na representação Conleth Hill, mas na inteligência com que controla o tabuleiro. Embora não pareça, acredito que só quer o melhor para Westeros.

Tywin Lannister – Jeffrey foi o mau da fita na segunda temporada, mas o posto está agora entregue ao avô. Com uma frieza implacável, é o único que consegue manter Cersei e Tyrion sobre controlo. Ver os filhos de cabeça baixa após o puxar de galões de Tywin é uma imagem poderosíssima e que representa bem o poder deste Patriarca na família e no futuro de Westeros.

Margaery Tyrell – Impossível ficar indiferente à beleza de Natalie Dormer e ao que consegue fazer com esta “inocente” rapariga. É notória a sua habilidade em controlar Joffrey, e até Sansa, promovendo um futuro muito proveitoso para a sua família.

Olenna Tyrell – Provavelmente a melhor adição ao elenco nesta temporada. Diana Rigg está absolutamente brilhante ao dar vida a uma “avó” cheia de vida, de inteligência, capacidade de estratégia e resposta. Não lhe chamam a Rainha dos Espinhos por nada. Conseguiu calar Cersei, Tyrion e Varys, para já. Estou mortinho por vê-la frente a frente com Tywin.

Notas: uma pequena nota para a pequena Shireen Baratheon e para a sua voz comovente. Missandei, a nova “criada” de Daenerys também entrou muito bem na série. Nathalie Emmanuel não só dá beleza à personagem, como promete dar vida a um novo poder feminino vindo de Este.

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Joffrey – Embora esteja bem sempre que aparece, aparece muito pouco. Diria que é quase uma sombra do novo rei da segunda temporada. Brilhantemente representado por Jack Gleeson, é um mau da fita à moda antiga e que merecia mais presença no ecrã.

Ros – Ainda não entendi bem qual a importância desta ex-prostituta no meio do trama. Sei que nos livros não tem este tipo de destaque, e parece-me que podiam substitui-la por maior presença de Littlfinger em cena.

Mance Ryder – Muito pouco tempo de ecrã para uma personagem tão importante e um actor tão bom. O Rei para lá da Muralha é suposto ser alguém importante e relevante, no entanto só tivemos direito a dois breves momentos. Exige-se mais.

Expectativas

Sandra B. – Tento lido os livros, estando assegurada da fidelidade da adaptação pela morte de Ned Stark, confesso que tenho poucas expectativas em relação à série. Para mim é como um rio que sei que vai chegar ao mar, e basta-me gozar a paisagem. Qualquer expectativa que possa ter, diz respeito a coisas que envolvem spoleirs, e são mais coisas de cenários e casting de gente que ainda está para vir do que do destino de quem está. Outra coisa que quero ver como vão resolver é o facto dos actores que interpretam crianças estarem a crescer mais depressa que os personagens.

A única coisa que me surpreende é as tretas que as pessoas que não leram os livros acreditam que podem vir a acontecer.

Vítor R. – É difícil opinar sobre este ponto, numa altura em que estamos a meio do caminho, no entanto posso afirmar que está a ser construindo um momento de tensão fantástico para um final de temporada bombástico. Sei que o final promete um momento bastante marcante (Red Wedding), cujo conteúdo desconheço, mas pelo qual anseio muito. Bastante satisfeito com a temporada até agora e sabendo que a história só tem tendência a melhorar, não podia antecipar nada menos do que um resto de temporada fantástico.

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Um muito obrigado aos dois autores.

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