Cemitério de Séries #3 – Toda a gente devia ver Girls

Um segredo sobre mim: durante muito tempo tinha uma mania de fixar uma personagem qualquer e imitá-la. Em tudo o que fosse possível. Um segredo mais embaraçoso é que às vezes ainda o faço. Girls, que vi de empreitada quando ainda estava em Erasmus, é uma série em que não dá vontade para imitar as personagens, porque são todas insuportáveis e egoístas e porque acabamos por ser as personagens sem o tentar. Quando o chefe aqui do estabelecimento soube deste post disse-me que a série é uma seca e eu estive quase a fazer delete do post e a publicar algo para ele me detestar para sempre (DON’T STOP BELIEVING, António!), mas em vez disso aqui está um post sobre porque é que o António e toda a gente devia ver Girls e adorar a série.

Girls é criada por uma jovem nos seus vintes e tais anos, a Lena Dunham, que além de escrever a série também interpreta a protagonista. Lena reconheceu que nao existem muitas series que representem esta geracao dos 20 anos que nao vive propriamente em dificuldades, mas que nao tem aquela vida glamourosa retratada noutras séries. É para uma geração que não tem problemas a sério, mas first world problems. E isto é retratado pela protagonista, Hannah de 24 anos, desesperada com uma conversa com os pais que já nao estão mais dispostos a pagar a sua renda, despesas e telemovel, e que responde desta forma:


(É ridículo como eu própria já usei esta frase umas vezes cá em casa)

Esta é a minha geração. Eventualmente até vai ser a minha situação daqui a menos tempo do que gostaria, quando não encontrar estágios e ficar aqui por casa a ruminar nos meus “problemas”, mas ainda com tudo pago e a esbracejar no meu privilégio.

Hannah diz “I think that I may be the voice of my generation”, num comentário que parece referência à criadora. Eu corrijo então uma coisa: Girls não é o retrato de todas as pessoas desta geração, mas também não se propõe a isso. Falta diversidade racial no elenco – o que vi apontado milhares de vezes, tanto que já estão mudanças previstas nesse sentido para a 2a temporada, e o foco está maioritariamente nas personagens femininas. Mas é o retrato de algumas raparigas de classe média na casa dos 20s e nisso, fá-lo bem.

Para mim, enquanto rapariga reconheço a importância desta série neste último aspecto. A série pode não agradar a alguns públicos, principalmente porque não é possível gostar de nenhuma das quatro jovens.

Apenas uma pode ser considerada bonita no sentido mais típico e a equipa de vestuário focou-se em escolher roupas que não parecem valer 89487587$ como acontece em todas as outras séries direccionadas a um público feminino.

As conversas entre elas vão muito além do tópico dos interesses amorosos. As cenas e o relacionamento entre o grupo tentam ser genuínas – tal como são as amizades entre raparigas na vida real – e não uma forma de satisfazer fantasias de algumas audiências.

Ao longo dos oito episódios vemos o grupo de amigas ter todo o tipo de atitudes egoístas e ridículas e pretensiosas e detestáveis e a procurarem algo que não sabem bem o quê, sem nunca estarem satisfeitas. Mas aí está o ponto onde queria chegar: da minha pouca experiência a seguir séries percebi contudo, que as personagens femininas são moldadas para que gostemos delas. São super atraentes e inteligentes e super atléticas e super dedicadas ao protagonista (António, esta é para ti: uma referência à tua miuda do Chuck de que me esqueci o nome), ou quirky como a miuda da New Girl (sorry Zooey, I still like you) e no final nós nem damos conta como se encontram desfazadas da realidade.

Girls não é uma série em que eu reveja episódios, como faço com as cenas musicais do Glee, nem serve para escapar da realidade. A sensação durante os episódios varia entre o desconforto, à irritação e vontade de dar um tabefe às miúdas e berrar-lhes para acordarem para a vida e fazerem algo útil (e a nós mesmos, às vezes), à identificação com os defeitos das personagens, a um estremecer em algumas situações awkward e tantas outras vezes, a um sorriso quando por algum motivo as coisas correm bem porque de certo modo é como se pudessem correr bem também a nós. Vá, vão ver a série!

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