Girls, uma série imperfeita

Terminou no passado domingo a primeira temporada de Girls e por isso decidi escrever sobre essa série que tanto deu que falar desde a sua estreia.

Because that’s what adventurous girls do.

Girls entrou na mira da crítica televisiva bem antes da sua estreia, considerada uma série promissora e fresca para a grelha da HBO. Da autoria de Lena Dunham, numa produção de Judd Apatow (Freaks and Geeks, Undeclared), era apresentada como a resposta alternativa e moderna à já conhecida Sexo e a Cidade, que terminara em 2006, para captar um público feminino e jovem.  Dunham, que tinha escrito, realizado e representado em Tiny Furniture, um filme de 2008, arriscara em escrever uma série, sobre um grupo de quatro amigas que vivem em Brooklyn, Nova Iorque, que estão prontas para aceitar os desafios dos 20 anos de idade, ainda que se sintam um pouco perdidas quanto ao seu futuro profissional e pessoal.

Girls apresenta um elenco de quatro jovens atrizes que interpretam personagens muito diferentes entre si, mas que se complementam. Temos Hannah (Lena Dunham), a personagem principal, neurótica e com baixa autoestima, que tem dificuldades em definir a sua relação com Adam, mas esperançosa pelas possibilidades que o futuro lhe reserva, agora que pretende sair do ninho para ser independente e aventurar-se na escrita. Marnie (Alison Williams), a sua colega de quarto, trabalha numa galeria, e é bem-comportada, tem uma postura mais conservadora e responsável dentro grupo. Ela está a ter algumas dificuldades na sua relação de alguns anos com Charlie, que vive com ela e Hannah. Jessa (Jemima Kirke) é uma britânica, apologista de um estilo de vida livre, sem preconceitos ou julgamentos frívolos. Ela está de regresso a Nova Iorque depois de ter estado distante durante alguns anos, e está pronta para agitar a vida deste grupo de amigas ao qual também pertence Shoshanna (Zosia Mamet). Ela é uma jovem sonhadora, algo politicamente correta, assim como uma boa fonte de sabedoria nos momentos mais inesperados. Ao contrário de Sexo e a Cidade, Nova Iorque, aliás Manhattan, não tem um papel tão relevante em Girls, não é a 5ª personagem, o que acaba por ser interessante retirar essa parte algo frívola da história. Marnie teve, a meu ver, a evolução mais interessante na 1ª temporada. Espero que a segunda temporada, que há-de estrear em 2013, preste mais atenção a Jessa e Shoshanna, que são duas personagens muito distintas mas de uma dinâmica interessante e prometedora, mas tiveram meio apagadas nos últimos episódios.

Why is everyone struggling in New York? Why don’t we all just move here and start the revolution?

É importante ter consciência de uma questão problemática, que tem sido o maior alvo de críticas: a raça. O elenco da série é predominantemente caucasiano, o que é suspeito, considerando que a série é gravada num dos bairros de uma cidade onde há uma presença de raças e etnias variadas. Por isso esta série foi criticada por ser uma representação de “white girls problems”, de uma geração privilegiada, formada, de classe média alta. Houve na comunicação social ligada à cultura popular, uma grande revolta à volta desta questão (grande no sentido – toda a gente e as suas mães tem uma opinião sobre Girls), tendo sido Dunham acusada de racismo, pela pouca diversidade racial e por querer integrar atores e atrizes de outras raças para dar-lhes uma função e características estereotipadas, de forma a preencher uma quota. Mas não vou por aí, que pouco de novo já há a dizer.

Eu gosto de Girls. Gosto porque é uma série despretensiosa, a qual é divertida assistir, aceitando aquilo que ela é, sem levar as coisas demasiado a sério. Esta série foi alvo de algumas críticas quanto ao facto das personagens, objetivos ou sonhos e as histórias não serem consideradas universalmente relacionáveis. Nem todos conseguimos identificar-nos com personagens como Don Draper, Dexter Morgan ou Walter White, personagens aclamadas da TV actual, envolvidas em esquemas pouco morais, éticos e legais. Contudo, isso não lhes retira a sua complexidade. Também as Girls são personagens completamente imperfeitas, cheias de contradições, como o ser humano real também é. Hannah Horvath é imensamente complexa: é interpretada por uma não típica estrela de TV atraente e atlética, é mimada, insegura, egoísta e isso é refrescante no sentido em que não representa uma típica personagem feminina super segura de si mesma, confiante quase perfeita ao olhos do público e das personagens ao seu redor. É ingénua, comete erros, como qualquer pessoa.

O que eu aprecio em Girls é o facto de Dunham não ter receio em colocar as suas personagens em situações embaraçosas, menos boas. Porque a vida real não é um mar de rosas, com sapatos Manolo Blahnik e Loubotins calçados, de forma a louvar uma vida super privilegiada. Dunham não faz questão de adoçar a vida e momentos menos bons destas jovens, de forma gratuita, e isso é bastante relevante, pois dá uma outra profundidade às personagens, não sendo necessariamente adoradas pela audiência. Existem diálogos parvos e isso é interesse ver, porque não há glamour nem adoçante. As personagens são complexas, existe uma evolução real, ao longo dos 10 episódios exibidos. A série teve um fim de temporada bem aberto, com alguns twists, de forma a aguçar a curiosidade para a segunda temporada, que virá em 2013. Tudo está em aberto na vida destas quatro raparigas de Brooklyn.

Girls não se leva demasiado a sério, mesmo que reflita sobre assuntos sérios (desemprego, DSTs, assédio sexual no trabalho), numa perspectiva feminina mais crua. Não pretende ser perfeita. É ficção, é entretenimento. Vale a pena ver.

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