Monday’s Morning Mirror #11 – Zombies e Companhia (ou hiperactividade ao som de tiros)

A perspectiva que traço sobre a vida é que todo e qualquer momento que temos é ponderado, pensado e comparado. Qualquer situação vivida, ou só vista, é qualitativamente (não quantitativamente porque os momentos são iguais nisso) comparado com todos aqueles que já passamos (e, por vezes, com a imaginação daqueles que viveremos). Assim, e por este mecanismo, é que consigo dizer que Glee não presta, que não tem qualidade narrativa nem de representação. Que Breaking Bad é a melhor série que já me passou pelos olhos. Ou que Fringe já foi melhor do que está. A comparação dá para fazer a categorização, listagem do bom, mau, óptimo e péssimo.

De entre as séries que se encontram em exibição, duas sobressaem claramente. Justified e The Walking Dead sobressaem como exemplos de boas séries, quer se queira quer se não (o Miguel Bento vai-me matar…mas pronto). Ambas apresentam qualidade, nem que seja alguma. A questão é o que distancia uma da outra. E, neste momento, o seu distanciamento é grande.

Justified é, na minha humilde opinião, a melhor série que nos é apresentada todas as semanas. A série já era das minhas preferidas, mas este ano conseguiu estar uns palmos bem acima da sua actual concorrência. As personagens são absolutamente fantásticas, e não só os principais. O principal trunfo da série é a renovação dos secundários, daqueles que não transitam de temporada para temporada. Justified começa a ser uma série bem construída por isso: ao contrário de Dexter, p.e., consegue ter um antagonista tão bom ou melhor que o protagonista, consegue ter interessantes personagens que os suportam, que os criam problemas, que os permitem crescer, que não distrai o espectador. Consegue ainda ter a facilidade de surgirem arcos diferentes. Das três temporadas que já a compõem, a terceira está a ser aquela que está a levar isso mais profundamente.

Parece que a série, ou quem por trás desta, decidiu que os espectadores que ainda a acompanham são aqueles que já sabem o que a série vale. Não é uma série feita de medos. As personagens aparecem e morrem, com lógica de quem pensa que a vida só são negócios, e as vidas por vezes moedas de troca. É uma luta constante por um poder, por um poder que é apenas passageiro. Não é uma série onde vejamos os bons e os maus. O protagonista não o é totalmente. Claro que não tem a dualidade moral de Breaking Bad, mas aproxima-se. Justified é a série onde o bem não existe. Nem o mal. Existe meios e existem fins. E há quem não olhe para os primeiros para atingir os segundos.

No meio disto, somos conduzidos pela narrativa, confronto entre gigantes de armas na mão. De traições, de alianças. A cada episódio há algo. Principalmente nesta terceira temporada. É como ver o nascimento, o crescimento e o fim de uma estrela. Cada fase é bela. Cada fase é nova. E, depois, como se por magia, a estrela volta a nascer, com parte dos mesmos constituintes, enquanto outros foram engolidos pelo buraco negro que se chama renovação.

The Walking Dead já não é assim. A matéria-prima é melhor. Um cenário pós-apocalíptico permitiria que o drama floresce-se, se se souber trabalhar tal. Justified é homens e negócios. The Walking Dead é homens e sobrevivência. A questão é que, mesmo com melhor matéria-prima, a série não está a resultar.

Não é que esteja péssima. A série está a ser mal aproveitada. Comecemos pelas personagens. Rick, o protagonista, tem sido um homem condicionado por uma rivalidade com Shane. O que é interessante é que as personagens não são tão diferentes como isso. Ambos tem um bem maior, que é salvar a sua família (que é igual), ambos farão tudo para isso. A questão é que Rick ainda luta para saber o que é esse tudo, Shane já se tomou consciência que tudo é tudo. No fundo, um difere no sonho que ainda tem. Mas, a medida que os episódios passam, o sonho desaparece. No fundo, Rick e Shane são o mesmo homem em fases diferentes.

Isto faz com que haja dois problemas. Primeiro: não há um verdadeiro confronto. Segundo: eu, como espectador, questiono-me o porque de tanto choradinho, tanta novela, entre duas personagens que não o merecem. Mas não só Rick e Shane são problemas. Todas as restantes personagens são condicionadas por este par, e parecem desaparecer no meio destes. Quando se dá o seu aparecimento, deve-se a casos amorosos. Todas as personagens encontram-se num relacionamento ou andam desaparecidas. O afro-americano do grupo quase nem se vê, excepto para espetar um ferro no zombie. O resto é amor.

Surge outro problema: como ser fofinho quando o mundo vive em desgraça? A série não sabe escolher, por isso dá-nos cenas inconsequentes onde vemos séries (dois pares, mais propriamente) que só pensam: “Como gostava de ver/mostrar a pila enorme/pequena” (por estudos, acho que percebem porque pus ali “pequena”) mas que depois lembram-se que estão a viver num mundo onde, apesar de poucas pilas sem carne viva, existe a questão da sobrevivência. Assim, os diálogos são “ai, quero comer-te, mas não posso”. E, no meio disto, perde-se uma personagem que estava a ser das mais interessantes, e nada se ganha.

Depois, e tirando o problema das personagens que pouco dão, temos a narrativa que pouco lhes dá. Os problemas estão interligados, mas podem-se diferenciar rapidamente. Se se for ver, os últimos episódios resumiam-se rapidamente: não se passou nada de relevante. Está feito, é para seguir. A série precisa de movimento, físico, e não só das personagens. Porque, estando sempre no mesmo espaço, as situações não surgem. O local onde estão tem protecções. Está a salvo. As personagens não são colocadas sobre pressão. Andam, divagam, batem com a cabeça uma nas outras, e mais nada. Tudo se resume a meia dúzia de quilómetros. Essa falta de mudança faz com que o número de ideias para o espaço seja pouco, e cada vez menos quando já poucas eram.

Por último, a série vive uma síndrome complicada. Parece que, por mais que tente, as personagens não são levadas ao limite. Ficam sempre pelo q.b. Não se vê drama, vê-se escolhas. Minimamente fáceis. E, quando surge algo mais complexo, elas fogem. Não decidem. Adiam…o que, para uma série, é morrer. Porque desilude o espectador, que queria desenvolvimento, e não traz nada de novo. Voltarão ao mesmo problema. É perdido de tempo e interesse. E, depois, quando parece “Agora sim, é que é disto”, surge algo para distrair. A síndrome de The Walking Dead é a hiperactividade. Não consegue estar quieta com uma situação. Talvez porque não encontra as situações que precisa para manter a atenção…

No fundo, vê-se dois pesos diferentes a darem medidas diferentes. A questão é que quem tem mais peso dá menos medida, e quem tem menos peso consegue dar mais. Como explicar isto? Com algo fácil: há quem tenha medo e há quem não o tenha. E The Walking Dead, ao contrário de Justified, é uma série que tem o medo presente. Até para evoluir uma situação.

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