Fringe – O sismógrafo sem tinta

A navegação na narrativa de Fringe é um caso bicudo, principalmente para quem tenta adivinhar o futuro sem todas as cartas. Serve isto tudo para dizer que isto é apenas uma opinião, uma teoria sobre o que a série nos tem dado nesta temporada. Assim sendo, como é óbvio:

[SPOILERS SOBRE O 13 EPISÓDIO DA SÉRIE]

Antes de mais dizer que, desde o início, achei que esta temporada de Fringe foi claramente o caso de termos uma série que deu o passo maior que a perna. Já o defendi num texto anterior, e volto a referir: apesar de ter uma capacidade fantástica de suster algo paranormal, Fringe não foi construído para paradoxos. Não vejo a série a suportar um paradoxo grandioso porque a mesma deixa de ter sentido: Fringe tem 3 personagens principais, 4 ou 5 secundárias e mais umas quantas que aparecem e desaparecem. O problema que surge não é nas restantes, mas sim nas principais. Devido a possuírem uma narrativa comum, Peter, Olivia e Walter construíram a história da sua vida dentro da série juntos. Os actos de um tem efeito nos outros dois. As restantes personagens pode-se arranjar forma de salvar a pele e dar-se a volta. Não é fácil, mas com alguma cabeça e eficácia, conseguimos passar de um Broyles morto para um ressuscitado. Mas, o trio, é impossível.

Isto faz com que, retirando uma peça, o puzzle se desfaça. No fundo, estão a jogar Angry Birds e acertam na base da plataforma. E, a partir daí, desfazendo-se de tal, tudo vem abaixo. Fringe decidiu retirar o Peter da narrativa. Isto permitiu construir um novo mundo, segundo deu a entender na season finale da 3ª temporada. Primeiro ponto para suportar o resto do texto: aqueles novos universos que nasceram ali não são mais que difracções dos anteriores. No fundo, a luz bateu na água e sofreu alteração da sua rota. A luz, as personagens, as situações, toda a sua vida passou por um filtro. Continuaram todas iguais, ou muito semelhantes, após passar num filtro “vamos mandar o Peter para o cara**”.

Isto faz algum sentido, acha este marmanjo. Primeiro porque a sala/portal onde ambos os mundos existem continua a existir nestes admiráveis mundos novos (AMN). E esta só se formou porque o Peter ligou a máquina. Assim sendo, para existir tal sala/portal, tem de existir Peter. Raciocínio lógico-dedutivo, certo?

Depois por existir uma história muito parecida à do mundo do Peter. Os universos mantêm-se demasiado semelhantes, a estética de cada nada mudou. As alterações são pouco significativas. Sinceramente, e se não tivesse sempre um bichinho chamado Peter a dizer que tinha de voltar ao seu mundo, acho que quem visse a série até ao final da terceira temporada e só começasse a ver lá para o episódio 10, não notaria as diferenças.

Terceiro e último ponto: os Observadores, que disseram que o September não tinha apagado o Peter. Logo, e pelo que a série parece dizer, sendo os Observadores uma constante no tempo, mas mantendo-se no mesmo universo, quando dizem que o September não apagou Peter da linha temporal, tem de ser do universo em que ele desapareceu.

Isto faz com que a existência do Peter nestes AMN não seja colocada em causa. No fundo, imaginem um sismógrafo. Durante as três primeiras temporadas, o sismógrafo foi traçando a actividade da vida do Peter. No início da quarta ele ficou sem tinta, apesar do papel continuar a correr…e, quando o Peter voltou ao mundo, foi de nova colocada a tinta no sismógrafo. Claro que surge um problema. O porquê de as pequenas alterações neste AMN?

E isso chateia-me demasiado. Porque a série deu, aqui, o passo maior que a perna. Se esta teoria estiver certa, a bota que a série criou para descalçar é demasiado grande. Como é que o Broyles está vivo? Isso é o que mais me chateia. O resto são ninharias, pedaços que, quando se coloca o Peter na narrativa, devem ser bem acertados. Mas, neste e no anterior episódio, surge uma solução inteligente.

Broyles é um shapeshifter. Já se chegou a esta conclusão quando o vemos a falar com o seu líder. Ou seja, o Broyles continua morto e enterrado, e foi substituído por um shapeshifter. Seria demasiado coincidência, uma sorte desgraçada, mas no fundo é a noção de destino aplicado a Fringe. Broyles tem de estar morto. Desta vez não foi morto para trocar a Altivia para este lado, mas sim pelos shapeshifter. No fundo é Fringe a dizer que Deus escreve direito por linhas tortas.

Só que surge a chatice de sempre: colocando o Peter na narrativa, haverá uma diferença significativa entre o seu mundo e o outro: o Broyles ter estado vivo durante o tempo em que o Peter esteve também. Ou seja, dizendo que o Broyles morreu no 3.13 e o Peter manteve-se “vivo” até ao 3.22, há ali um período de tempo em que existe um paradoxo. E, de novo, Fringe não consegue resolver isso.

De resto, e vendo que também Nina é uma shapeshifter, falta saber o porquê de eles quererem infiltrar-se em tais posições elevadas. Mas isso é algo que a série nem pistas deu, e se deu, não apanhei. O que sei é que queriam algo da Olivia, por causa disso é que lhe andaram a dar a droga divertida. Mas parece que o tiro saiu-lhes pela culatra. Olivia recordou-se do passado de Peter. No fundo, começou a ser a ponte entre as duas linhas do sismógrafo.

A partir daqui, e apoiando-me nesta teoria (de novo refiro que é só uma teoria), surgem duas janelas interessantes: incluindo o Peter no puzzle, alinhando as restantes peças, fica a faltar o período temporal em que ele não existiu. Se o Peter existiu antes e depois do salto do sismógrafo, o nosso mundo seria igual ao AMN com a falta da sua existência? E, depois, se este é o universo e a vida de Peter, como será colocar todas as restantes personagens no mundo antigo, já que o Peter não pode ser transferido para o AMN? E que alterações trará isso à narrativa?

Tudo perguntas que espero que sejam respostas. Continuo a dizer: a ressuscitação de Broyles foi um passo maior que a perna. Parte das mudanças também, apesar de essas serem mais fáceis de acertar. Mas, com o andar da carruagem (tive esta teoria de o Peter estar no seu mundo no episódio anterior), cada vez mais vejo a chegar a minha estação. Talvez esteja redondamente enganado…talvez não. Por alguma razão amo as séries: por vezes conseguem ser incertas. Por vezes, algumas.

PS: Para algumas comparações usadas neste texto não foi usada pesquisa. Os sismógrafos até podem nunca ficar sem tinta.

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One thought on “Fringe – O sismógrafo sem tinta

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