Friends: velhos amigos, novos amigos

Nunca escrevi uma crónica na minha vida. Devo dizer que quando aceitei o convite do António mergulhei de cabeça para este mundo do qual pouco conheço (o das crónicas). Mas embora desconheça o meu hipotético talento (ou falta dele) para estas andanças, decidi aceitar o desafio. Este é um novo ano e, como tal, sigo o lema “Yes to Life!!” da Liz Lemon (30 Rock, NBC). Não há ninguém que me compreenda melhor do que a Liz, devo dizer. A lengalenga da Liz continuava: “Yes to Love. Yes to staying in more”. O que ela diz é verdade. Embora eu já me tenha esforçado para tentar negar que não passo assim tanto tempo em casa. Mas quem eu quero enganar? De que outra forma eu alimentaria o bicho? Esse bicho de que falo, na realidade, até são três: o meu cão, a minha tartaruga e o bicho das séries.

Além de animais, querem melhor companhia que séries? (Haver há mas não vem agora para o caso.) É como ter novos amigos. Entra-se para um outro mundo, conhecem-se pessoas, vivemos as histórias (de amor ou de terror) e quando damos por nós, sentimo-nos parte do grupo, somos uma nova personagem naquele cenário. Gosto destas novas amizades, em tudo é possível.

Mas de vez em quando é bom voltar aos velhos amigos. Aqueles que te conhecem como ninguém. Aos que estiveram lá quando precisaste. Aqueles que riram e choraram contigo. Aqueles com quem discutiste mas tu sabes que não consegues viver sem eles. Sabes isto porque eles te compreendem e porque os melhores momentos acabam sempre por ganhar e os maus momentos esquecem-se. Senti isto com Friends.

Friends foi a primeira série que me arrebatou. Sim, é necessário esse termo dramático. Porquê? Pertença. Foi a primeira série que me fez querer estar . Acompanhar a vida destas pessoas que todos os dias chegavam até mim pelo ecrã da televisão. É fácil reconhecermo-nos ou aos nossos amigos na série: todos temos aquele amigo distraído e optimista, o básico com coração de ouro, o geek, o engraçadinho e criativo, a “mãe” ou a responsável do grupo, a mimada e ambiciosa. Mas eles não se resumem apenas a isto. Não são retratos unidimensionais. Torces por eles, mesmo sabendo que estão a correr um risco, mas estás lá para o apoiar, quando caírem. Nos bons momentos, quando há boas notícias, és o primeiro a dar aquele abraço. Juntos vivem aventuras, romances, choram e riem, partilham experiências, ensinam e aprendem. E o mais engraçado é que assistir a Friends aproximou-me das minhas amigas, que também viam a série. No dia a seguir comentávamos o episódio do dia anterior e era sempre divertido, porque nos revíamos naquelas personagens e naquelas situações, nem que fosse pelo desejo de queremos vivê-las.

Mas quando as amizades têm um fim, ou vão para “hiatus” (às vezes é preciso dar um tempo), é preciso acreditar que a vida não acaba aqui. Há tanta coisa ainda por fazer. (E quando digo coisas, quero dizer novas séries, claro) Quando Friends terminou confesso que me senti um bocado perdida. (Bom, isto não é completamente verdade, havia outras coisas para ver, mas faz de conta.) A série marcou uma geração de ouro na NBC de 1994 a 2004 e dificilmente haveria outra de tanto sucesso como a série teve. Foram aparecendo séries que tentaram chegar ao nível de Friends. Mas compreendeu-se que Friends não ditou a regra mas foi sim uma excepção nas séries do género. A série criou de certa forma um molde, mas graças a guionistas bem-intencionados e criativos, algumas séries esforçaram-se para ganhar o seu próprio espaço, com histórias e personagens originais e relatáveis, tentando fugir da pressão denominada Friends.

De seguida, vou apresentar três exemplos de séries que estão no ar actualmente e me lembram de Friends, ou são de certa forma, as minhas rebounds ou novas amigas (sim, isto é um caso muito sério e um tanto lamechas.)

How I Met Your Mother (CBS) foi uma lufada de ar fresco, no seu surgimento. Indicada como potencial novo Friends, dentro do mesmo formato, a série transmitiu desde o princípio momentos de grande diversão. Contrariamente a Friends, a HIMYM tem uma história condutora. É liderada por uma personagem, Ted, que tinha um propósito: contar aos filhos como conheceu a mãe deles. Ted não está sozinho. Ao relatar a história, ele revisita alguns momentos da sua juventude, onde conta com o seu grupo de amigos composto por outras quatro personagens (Barney, Robin, Marshall and Lily). O humor é talvez mais arriscado que Friends sem fugir ao formato sitcom. Tenho a dizer que HIMYM desiludiu-me. Após 4 temporadas consistentes, muito boas, a série demonstrou sinais de cansaço e hoje em dia, na sétima temporada, está cada vez menos convincente no que diz respeito à história principal. É esse o risco de se ter uma história condutora: não saber o que fazer dela, enrolar a trama até mais não, deixando de se tornar interessante e começar a ser esquecida. Mas isso é tema de conversa para outra ocasião.

Cougar Town (ABC) é um caso muito peculiar. Uma série sobre uma mulher que, após o divórcio, quer recuperar o tempo perdido, conquistando homens mais novos. Ao fim de 10 episódios, essa história foi deixada de lado. Ainda bem. O potencial da série está nas relações de amizade entre as personagens, sem necessariamente esquecer de retratar a vida pós-divórcio: a parte do começar de novo, com os novos desafios pessoais, as ligações de amizade que são destruídas ou consolidadas, a situação dos filhos. Simplesmente foi dada uma nova roupagem à trama principal. Ainda há muita gente iludida de que a série ainda é sobre “predadoras” sexuais em Miami e muito se têm brincado com isso, criando alguma diversão à volta disso (o próprio genérico da série é um exemplo dessa brincadeira). Mas a série, nos dias de hoje, está tão longe da premissa original, que é divertido assistir à quebra de preconceitos das pessoas que dão uma oportunidade à série. É sim sobre amizade, sobre oportunidades e aventuras. De facto, não tem um formato idêntico mas transmite-me aquilo que eu gostava em Friends: vontade de fazer parte. Têm personagens mais maduras (bom….) mas não menos divertidas. Imaginemos que as personagens de Friends se reformassem, se mudassem para Miami, para rejuvenescer interiormente, e passassem o dia a beber vinho e criar drinking games e outros jogos divertidos (PENNY CAN!!). Vale a pena. Se ainda não vos convenci, a Courteney Cox, a Monica de Friends, faz de Jules, a personagem central de Cougar Town.

Happy Endings (ABC) é outra série que me tem surpreendido mas que facilmente associo a Friends pela dinâmica de grupo e relações. Passa um pouco despercebida, comparando com outras comédias da actualidade, ainda está um pouco verde, uma vez que vai na sua segunda temporada. Conta a história de um grupo de amigos que se encontra no meio de um noivado falhado. À semelhança de Friends, Alex (interpretada por Elisha Cuthbert) foge no dia do casamento, para reavaliar a sua vida, como Rachel (Jennifer Aniston) tinha feito no primeiro episódio de FriendsHE não tem medo de criar situações, digamos, parvas e colocar as personagens em situações idiotas e constrangedoras. É menos séria e menos responsável. Não houve até à data episódios com carga demasiado emocional, a não ser que essa emoção seja rir muito. Faz piadas meta, tem flashbacks, tem catchphrases. A sua escrita é mais ousada, longe do estilo sitcom. Mais uma vez, é uma série sobre amigos, com personalidades muito díspares (e únicas) mas que se complementam entre elas.

Estas séries são como novas amizades. Conhecemo-las, fazemos parte  da vida delas, somos parte do grupo, conhecemos novas realidades, mesmo que Friends tenha sido a primeira e the real deal. Aquele/a primeiro/a amigo/a que nunca vamos esquecer. Encontramo-nos de vez em quando, há aquele constrangimento inicial mas passado uns minutos, é como se o tempo nunca tivesse passado. Mas a vida continua, existem outras pessoas nas nossas vidas. Temos novos amigos, e gostamos deles, porque é com eles que contamos agora. E assim são estas séries: há aquele esforço para se tornarem novidades, ter o seu estilo, construir o seu próprio caminho, e isso deve ser apreciado.

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