Lost in Fringe [Act.]

Primeiro, o título é claramente um trocadilho. Não, não vou ser daqueles loucos que anda a ver Fringe com o intuito de descobrir paralelismos com Lost. Deus me livre…O título apenas refere um estado de espírito que sinto ao ver Fringe…Perdido.

Primeiro ponto: Fringe é uma série que prezei desde que vi. Ao contrário de muita gente, fui apreciando os casos, porque como um homem da ciência gostava de ver aquilo. A partir do momento que a série se fixou só nisso e eu a apetecer-me outras coisas (meio da segunda temporada…pr’ai) comecei a fartar-me. Chegou a terceira temporada e aquilo arrebitou. Fringe deixou o estilo procedural, os casos semanais, e pôs-se a dar uma narrativa mais continuada. No fundo, ao perder parte da audiência, Fringe decidiu que o melhor era dar miminhos a quem restava. Tentou fidelizar os espectadores, num estilo que Lost tinha conseguido (e digo Lost porque foi a última série, em TV Aberta, que tentou isso com a franqueza/abertura de Fringe. Por exemplo The Good Wife tem esse estilo, mas é o secundário…mas essa consegue dar casos cativantes), apesar de serem poucos os que restaram. A transição para as sextas retirou outra fatia da população, mas deixou os fãs. Claro que há sempre uma margem daquelas pessoas que apanham a série a meio, vêem o episódio e voltam lá dali a um mês. Mas, numa sexta-feira, acho que esse pessoal gostaria mais de um procedural puro que uma série que tinha dado continuidade.

Isto tudo para explicar que, ao contrário de Lost, que deu primeiro aos espectadores mesmo antes de eles querem, Fringe precisou que quem a acompanhava regularmente quisesse para dar uma narrativa continuada, ligada, sem grandes pontos mortos. E, assim, a série foi aclamada o ano passado, tendo havido até gente que tiveram prestes a atirar-se da 25 de Abril abaixo porque os Emmy’s não viram a qualidade que eles viam na série. Não era caso para tanto, mas Fringe subiu a fasquia, e tornou-se das séries mais interessantes para acompanhar.

SPOILERS

Claro que, com grandes actos, grande responsabilidade. Fringe acabou a terceira temporada de forma muito interessante, deixando Peter fora da narrativa após este ser um dos principais pilares da série. A jogada foi arriscada, e como qualquer truque arriscado, foi aplaudida por grande maioria das pessoas, acompanhada da pergunta “E AGORA?!?!?!”. Sinceramente, e tirando o Caps (aka dramatismo/fanatismo), só me inclui na segunda. Porque cheirava-me a esturro. Comentei até com o Jorge Pontes tal, numa daquelas conversas que temos sobre séries. Porque o “E agora?” teria sempre algo de errante, de incerto. Como se Fringe tivesse dado um passo maior que a perna.

Porque, no meu ponto de vista na altura, Fringe arriscou e falhou. Pensemos numa bola de futebol. Dêem-lhe um pontapé e determinem o local onde ela pára. Agora, a partir do mesmo sítio, com as mesmas condições, dêem um pontapé à mesma bola de futebol, mas vazia. Esta pouco avançará. E a trajectória que fará é completamente distinta. Fringe retirou o ar a série e mudou pouco. Mas isso não me chateia muito. Claro que a mim faz-me confusão que Walter tenha saído do estabelecimento médico, quando só foi possível tal por causa de Peter. E porque, quer se queira quer não, todas as decisões da série, todas as decisões das personagens principais (Nina, Walter, Olivia, Broyles, Astrid) tiveram influência, nem que seja vestigial e indirecta, por parte de Peter. Claro que neste último episódio Walter refere que Peter existiu. E aqui Fringe encaixa nas temporadas passadas: Peter deveria ter morrido no lago, após o “nosso” Peter ter morrido na cama. Mas a série não seria o que é se Peter não existisse Peter. Fringe não teria um departamento de Fringe, com certeza.

No fundo, a série está agarrada a um fantasma. Mas vamos esquecer isto tudo. Vamos esquecer na metáfora da bola, e digamos que Fringe, sem Peter desde a sua tenra idade, conseguiu seguir pisadas muito semelhantes a “Fringe” com Peter e chegar a este momento. Uma só nota ainda em relação a este paradoxo criado: os Observers, fora o habitual (não me perguntem os nomes…não era preciso ser vidrado, mas eu nunca me dei ao trabalho de decorar o nome deles), como navegantes do tempo, não saberão que Peter ainda está “vivo”?

Mas, e agora pensemos no futuro da série, Peter voltará. É certinho. E, a partir daí, a confusão reinará. Vamos fazer outra metáfora. Vocês tem uma bola de Berlim que um amigo trouxe e que ele vai comer com vocês. O amigo vai e não regressa à noite. A bola de Berlim vai-se estragar. Por isso vocês comem. Quando o amigo chega, já não tem bola de Berlim. No fundo Fringe passa-se isso. Peter foi-se embora e outra história se constrói. O Peter, quando regressar, vai ter uma história onde ninguém tem nada a ver com ele. E perguntará: onde está a merda da Bola de Berlim que era para comermos juntos?

A questão é que, Peter, ao ser inserido de novo na história, em qualquer tempo, cria duas situações: (voltando à metáfora) Uma em que o amigo chegou no dia e comeu a Bola e outra que não. Sobrepostas. E Fringe não aguenta paradoxos. Ponto final. Apesar da série querer, é a mesma coisa que querer jogar futebol com bola de râguebi. Aí até o Hélder Postiga pode marcar golos.

E a única situação que pode resolver tal é, das duas uma: a criação de um novo universo onde o Peter esteve sempre presente (tomando a presença dele por uma escolha) ou um salto para o passado. Primeiro, isto continua-me a chatear. Fringe não é uma série que crie universos nem dê saltos para o passado e futuro. Já me chateou bastante a Season Finale da terceira temporada, porque para nada serviu. Foi um Heroes disfarçado, pois a ida ao futuro faz com que esse futuro deixe de existir. E, depois, ambas as soluções têm algo péssimo: para nada serviu estes episódios. Serviram para ocupar espaço, porque isto não vai acontecer.

Claro que a solução que vejo é a inserção de Peter de novo no universo de Fringe, com alguma preparação e explicação. Mas precisam-me de convencer muito bem como o fizeram. E não vejo eles conseguirem. E isto chateia bastante: Fringe deu um passo maior que a perna, e ou regressa ou pisa a lama. E nenhuma delas é benéfica para a série.

Claro que os defensores da série dizem-me que é preciso ter confiança. Por isso é que decidi escrever este texto antes de tudo acontecer: porque assim não vou ser daqueles que deixam tudo acontecer e depois dizem “mas eu já pensava isso”. Se Fringe me satisfazer, ainda bem para a série e para mim. E este texto será mais um comentário que eu sou falível. E que sou claramente. Mas, como diz o meu professor de TCM, a diferença entre os engenheiros e os economistas é que os primeiros prevêem e não podem falhar, os segundos prevêem, falham e, em vez de ir a tribunal, vão tentar ver aonde falharam. E eu quero ser Engenheiro.

Mas nem só isto me chateia em Fringe. A série, como expliquei no início do texto, deu-nos na terceira temporada algo novo. Mas, quando eu pensava que os casos tinham sido deixados para trás, voltam à grande e à francesa na quarta temporada. No fundo, quando se esperava que a série explicasse, ela dá a volta e decide que é bom dar casos desinteressantes, sem relação com a narrativa e o arco principal da série. Explicam-me que todos os casos têm uma conexão com as personagens: este terceiro episódio por exemplo serviu para demonstrar a figura paterna do Walter ainda presente. Mas eu pouco me importa que Walter seja um bom pai. Isso até já tinha percebido minimamente durante a série. Importa-me antes que o Walter seja um bom pai para o Peter e como isso acontecerá.

Por isso, cara Fringe, dá-me algo. Dá-me sinal de vida. Porque, agora pareces um parasita nas minhas manhãs de Sábado. E já esperava mais de ti…por isso explica-me como comeste a bola de Berlim sem a comer. Obrigado…

PS: Lida posteriormente uma entrevista da Anna Torv, ela refere que o Peter pode regressar como um desconhecido para todos, mas que sabe muita coisa. Mas isso continua a não encaixar na situação de Broyles: o Broyles do outro lado morreu com o Peter na série, logo o seu regresso significaria a morte desta, não? Porque o Peter passaria a existir em toda a série, excepto neste início da quarta temporada? Mas de novo cai-se na situação da Bola de Berlim: o mundo com Peter seria diferente, logo ele não pode existir. Claro que uma das respostas possíveis é que o universo que agora estamos a ver seja um que nunca tenhamos visto e onde o Peter tenha morrido mesmo. Mas isso é a desculpa dos fracos: erramos, muda-se de universo e cria-se de novo. E assim Fringe torna-se uma série desinteressante porque tudo o que vimos pode ser apagado e substituído por outro universo.

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One thought on “Lost in Fringe [Act.]

  1. O facto do Broyles estar vivo não incomoda, porque de facto como explicaram neste episódio o Peter morreu porque não houve a intervenção do observador e portanto os mundos progrediram sem ele lá estar, como era suposto ser… e até podiam ter morrido e vividos muitas outras personagens que isso não estaria em causa, que já se percebeu que este é um terceiro universo. O problema são as consequências da existência do Peter onde quer que ele esteja… se como dizem ele entrar neste universo como um estranho aí sim há um enorme paradoxo e a série perde coerência como aliás já perdeu com esta jogada. Porque de facto não nos interessa nada este universo onde os dois mundos convivem em harmonia mas sim o que realmente a maquina provocou na realidade. E depois há coisas que me deixam parvo… o filho do Peter serviu apenas para fazer funcionar a maquina o peter nem soube dele… absurdo… as primeiras pessoas nem eu entendi ao certo qual era a lógica… ah e tal foi para mandar as peças não sei para onde para impedir uma coisa que ia mesmo acontecer (what?)… e depois lembram-se daquele episódio onde eles entram na mente da Olivia e eles encontram ‘o homem que a vai matar’… tudo isso eram peças que eu julgava que iam servir para alguma coisa… e afinal foi tudo deitado ao lixo para uma trama que só me lembra os flashsideways do lost que foram a coisa mais inutil da série… vai na volta aqui também estão no limbo e no final encontram-se todos para festejar a cura dos mundos aos abraços e beijinhos. Que desilusão.

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