A Série da Minha Vida: The Wire (por Mateus Borges)

Nos últimos anos, a televisão andou fascinada pelo conceito de poderosas e maciças forças destrutivas, com buracos negros, big bangs e genes podres que contaminam. Em pequena ou grande escala, Walter White, Tony Soprano, Don Draper e tantos outros protagonistas da última década mostraram essa propagação, do estouro que leva a explosão e dos inocentes que acabam sendo destrinchados sem piedade por ela. O que The Wire faz de diferente nisso é analisar como parte de um conjunto ao invés de algo isolado, aliando essas inovadoras qualidades com elementos tão velhos e básicos quanto a própria televisão.

Afinal, na obra de David Simon vidas inocentes se vão, jovens se tornam viciados por influência e um estivador pode acabar recebendo um container cheio de prostitutas mortas antes mesmo de o seu café esfriar. Mas a série não é só sobre o pai de família que levou uma bala perdida. Não é sobre o garoto que nasceu no lugar errado. Não é sobre má sorte.

The Wire é sobre Baltimore. É sobre uma linda, maravilhosa cidade com uma força destrutiva presa no seu centro. Ela não é específica, não é ligada a apenas um indivíduo ou uma organização ou até mesmo a própria Baltimore – e nesse sentido, os temas atravessam fronteiras e partem para noções básicas de como construímos nossas vidas e vivemos em sociedade.

Algo que, novamente, é uma ideia bem básica para o meio. Todo programa de televisão, de uma maneira ou outra, aborda temas de comunidade – como ela isola, constrói, destrói ou contribui – por ser uma reflexão básica. E se tem uma série que engloba todos os pontos desse espectro com absoluta perfeição, ela é The Wire. A análise em conjunto dos seus personagens permite uma imersão completa na própria trama, que habilmente e constantemente reflete esses temas maiores: tudo aqui é conectado. Não apenas por David Simon ser mestre em criar quebra cabeças, mas por trazer esse senso de uma maneira única e envolvente para a tela. Nessa ideia, The Wire ganha a permissão de ser tanto realista (da maneira como é filmada até o figurino) como romântica (das homenagens que faz aos recursos da fórmula caso-por-temporada que usa e abusa com tanta qualidade).

Ela pode aliar crítica política ao uso de figuras quase sobrenaturais como Omar ou Brother Mouzone. Ela pode arrancar um momento cru de emoção, ao mesmo tempo em que se esbalda no triunfo de um caso ou em um épico tiroteio. Ela pode criar intricadas histórias e não o fazer de uma maneira que seja deliberada.

Agora, ao escrever isso, percebo que só estou dando mais razão para quem descreve The Wire com palavras como intimidante, complexa, fria, complicada… E sim ela pode aparentar ser assim em momentos. Mas em essência, é apenas uma história que resolveu fazer perguntas simples quando personagens no centro da tempestade são obrigados a enfrentá-las. O que fazer? Como reagir? Como vender essa noção de violência desenfreada para a população? Quando parar? Quando seguir em frente?

Perguntas por si só já interessantes, que se tornam especiais por causa das respostas oferecidas. Ou melhor: pelo resultado delas. Nos mundos de David Simon, reflexões até certo ponto exatas do nosso, toda resposta leva ao nada, e esse nada leva a várias outras perguntas. Claro, você pode fazer boas ações aqui e ali. McNulty pode resolver um caso. Um menino pode fugir dos bairros pobres. As ruas podem ficar seguras por alguns meses durante Hamsterdam (sic). Ainda assim, o ciclo seguirá em frente com resultados diferentes. Essas coisas se tornarão poeira. Outro caso com mais mortes e drogas vai aparecer. Outro menino vai falhar em fugir e perecer ao uso da droga da vez. Outra medida de segurança vai falhar. Nada vai mudar.

Não é que The Wire não tenha finais felizes. É que ela se constrói na ideia de que não existe um verdadeiro final. A música toca, lágrimas caem, abraços são dados até onde é possível, a tela se apaga e tudo continua igual. Pessoas, ações diferentes, tudo leva ao mesmo.

O engraçado é que mesmo completamente inovadora nesse aspecto, The Wire não é influente. Ninguém (além do próprio Simon) tentou alongar/estender/repetir essa mesma noção básica que nem os muitos que pegaram e tiveram sucesso com as ideias de David Chase para The Sopranos. Ela fez algo único.

Perfeita como intenção, igualmente perfeita em tirar de tudo isso entretenimento e funcionar em tantos, tantos níveis.

Nada substituiu The Wire. E tenho a forte impressão de que nada irá.

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