A Série da minha Vida – Breaking Bad (por João Barreiros)

Permitam-me que comece por dizer que escolher uma só série, de entre o conjunto de todas que já assisti, para nomear como “A Série da minha Vida”, é uma tarefa bastante difícil, não só porque cada uma delas tem as suas qualidades e defeitos, mas também porque sempre fui péssimo a fazer listas, a ordenar segundo as minhas preferências coisas de que gosto, de cada uma à sua maneira. Fico sempre com o sentimento de que não estou a fazer justiça a determinado elemento ou que poderei estar a conferir mais importância a outro do que de facto ele merece. De forma a prevenir tal sentimento, decidi escolher, não exactamente a série da minha vida – porque não consigo nomear só uma -, mas aquela que actualmente mais me dá prazer e que, por isso, está certamente no topo das minhas preferências. Falo de “Breaking Bad”, que, por qualquer razão, nenhum dos convidados anteriores desta rubrica escolheu.

A premissa nem é assim tão original: um professor de química de meia-idade junta-se a um ex-aluno para fabricar e distribuir metanfetaminas, após ser diagnosticado com um cancro do pulmão fatal. A excelência está no desenvolvimento das personagens, que ao longo das três temporadas já exibidas, nos revelam várias das suas facetas, evoluindo de simples formas, simples figuras com determinadas funções a desempenhar na série, com certos limites e comportamentos padronizados, para a complexidade de personalidades com um grau de autenticidade elevadíssimo, onde as mutações e as contradições são frequentes, mas nem por isso desprovidas de sentido. E não me refiro só ao progresso dos dois personagens principais, mas também aos espectaculares Skylar e Hank, que cresceram a olhos vistos na última temporada. Nenhum personagem não tem importância, ninguém é descartável, e isso deve-se ao fantástico comando da história efectuado pelo criador Vince Gilligan

Na primeira temporada, como não poderia deixar de ser, é quando conhecemos todos os elementos da trama. Conhecemos Walter, conhecemos a sua esposa Skylar, o seu filho Walter Jr., conhecemos Hank, o seu cunhado fanfarrão, e conhecemos Jesse e os seus problemas com a droga. Compreendemos os motivos que levam os protagonistas a encetar pelo tráfico de droga e, após uma primeira experiência fracassada, que acaba em sangue, fogo e ácido, assistimos à primeira grande hesitação da dupla de traficantes, que ocorre ao longo de alguns episódios, em que Walter repensa as suas acções e se concentra na família, a quem tem de dedicar mais algum tempo para que digiram bem as notícias do cancro.  Após este pequeno interregno, Walter e Jesse são novamente atraídos pelo e para o mundo da droga, e uma nova etapa começa, com Tuco, um drug lord proeminente, agora a bordo.

Tuco é o principal problema de “Heisenberg” e Jesse nos episódios iniciais da segunda temporada. O episódio “Grilled” marca o fim deste capítulo, de forma absolutamente espectacular, ao juntar na mesma casa o par protagonista com o vilão e o seu tio paralisado, cujo som da campainha só ajuda a adensar o ambiente por si só já bem tenso. Com Tuco riscado da lista de preocupações, é tempo de tentar remediar as sequelas deste novo período do negócio, remendando mentiras mal formuladas e desviando certos momentos de desconfiança com extremosa atenção em relação aos familiares. É também por volta desta altura que se evidencia o caso de stress pós-traumático de Hank, iniciado pela execução de Tuco e pela breve participação nas trágicas operações policiais de El Paso. Jesse e Walter aventuram-se novamente por águas desconhecidas, desta vez contratando alguns aliados, formando uma verdadeira corporação hierarquizada, cuja formação nos conduz ao memorável episódio “Peekaboo”, no qual Jesse entra num lar destruído pela droga de forma a cobrar uma dívida. É, no entanto, a descoberta de que o cancro está em remissão que vem pôr em perspectiva a participação de Walter nesta actividade ilegal: é tudo uma maneira desesperada de juntar algum dinheiro para a família?; ou tratar-se-á, afinal, de uma crise de meia-idade, aliada ao desejo de ser mais do que um professor do Secundário, de realizar algo mais relevante, e à sua paixão pela química? A verdade é que Walter não põe um ponto final a esta participação, bem pelo contrário! Assumindo que o fabrico de anfetaminas lhe dá prazer, assumindo que é incapaz de deixar esta actividade, Walter afunda-se ainda mais nas perigosas redes da droga e começa a trabalhar para Gus. Ao mesmo tempo, juntamente com a namorada Jane, Jesse afunda-se também ele no consumo excessivo de drogas, fazendo com que Walter lhe vire as costas e, mais tarde, que se reserve ao direito de não fazer nada enquanto vê Jane (que influencia Jesse a fugir com ela e com o dinheiro que ganhou) morrer sufocada.

Este acontecimento tem séries repercussões, quer na vida de Jesse, quer na vida dos cidadãos de Albuquerque, após o desastre de avião que indirectamente é provocado por Walter. Descobrindo todas as mentiras contadas por Walter, Skylar sai de casa e, em pouco tempo, relacionando tudo o que tem vindo a descobrir sobre o marido, apercebe-se finalmente da vida dupla do marido, deixando os telespectadores completamente atordoados. É assim que começa a terceira temporada, de que eu já falei um pouco neste outro post. O serviço para Gus continua, após nova pausa, em que tanto Jesse como Walt lidam com as consequências dos acontecimentos do desfecho da segunda temporada. Lidar com as consequências da temporada anterior é, aliás, o mote desta nova época, pelo que temos os temíveis Cousins (de Tuco) no encalço de Walter e Hank (cuja perseguição culmina nos sufocantes últimos minutos do episódio “One Minute”), Walt a tentar salvar o seu casamento e Jesse a vingar a morte de Combo, que vem-se a descobrir estar relacionada com o negócio de Gus. É aqui que tudo se complica, quando a dupla de protagonistas enfurece Gus ao matar os assassinos de Combo. Depois desta acção impensada por parte de Walt, apercebem-se rapidamente que a única hipótese de continuarem vivos é se matarem a única outra pessoa que conhece a fórmula de Walter de produzir anfetaminas. E assim, mais uma vez, é Jesse (que, apesar de ter estado perto de descobrir no introspectivo episódio “Fly”, ainda não sabe que Walter podia ter evitado a morte de Jane) quem sofre com as sequelas de planos mal pensados.

Após este breve comentário e resumo, que serve também para relembrar alguns acontecimentos antes da estreia da quarta temporada, acho que está praticamente tudo dito. A história é fenomenal, inteligente, trabalhada ao mínimo pormenor e tão coesa como uma história ficcional, derivada da imaginação, pode ser! A escrita é soberba e o elenco, comandado por Bryan Cranston, Aaron Paul e Anna Gunn, só lhe faz justiça. Para quem nunca viu, não percam a oportunidade de o fazer o mais rapidamente possível, antes da estreia da próxima temporada, que promete a mesma qualidade das restantes, a partir de dia 17 de Julho na AMC. Em Portugal, a série passa no MOV.  Não percam!

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