Zapping Crítico #5 – A terceira temporada de “Breaking Bad”

À semelhança do “Zapping Crítico” anterior, que foi publicado excepcionalmente a um sábado, esta quinta edição da rubrica é também ela publicada fora de tempo, excepcionalmente a uma sexta-feira. Igualmente excepcional é ocupar o espaço desta semana com os comentários de apenas uma série: “Breaking Bad”. Acontece que, finalmente, me actualizei e redescobri o quanto gosto desta produção da AMC, que, digo-o sem pudores, é um dos melhores trabalhos criativos da actualidade!

Parti entusiasmado, terminada uma segunda visualização das duas primeiras temporadas, para o que se seguiria na vida de Walt, Jesse, Saul, Skylar, Hank, etc. A colisão dos aviões concluiu o último episódio e serviu como ponto de partida para a fantástica terceira temporada. Este acontecimento, que ocorre porque Walter decide deixar Jane morrer, funciona como uma analogia inteligente com tudo o que veremos ao longo dos 13 episódios que compõem a temporada: situações de perigo e outros tumultos, que, no fundo, não passam de danos colaterais da actividade por que Walter decide enveredar. As consequências dos actos que Walter tomou na primeira e na segunda temporadas fazem-se agora sentir, quer quando, por exemplo, os Cousins decidem matar o assassino de Tuco, quer quando Skylar finalmente descobre a verdade ou quando Jesse decide vingar a morte do amigo Combo (vítima da ganância do protagonista). Walt sai geralmente ileso das confusões em que se envolve, mas sempre graças aos sacrifícios cometidos por outros (Jesse, principalmente). Uma cena que não posso deixar de destacar é aquela em que Jesse, deitado na cama do hospital depois de levar uma tareia de Hank, acusa Walt por tudo o que de mal tem acontecido na sua vida ultimamente. Apesar disto, as circunstâncias acabam sempre por os juntar, sendo que, como também acaba sempre por acontecer, Jesse é quem mais sofre com isso. A última cena, se repararem, é basicamente uma réplica do que aconteceu no último episódio da segunda temporada; a única diferença é que, enquanto nesse dois aviões vão um contra o outro, neste episódio Jesse é quem colide, deixando-nos na expectativa para sabermos como a morte de Gale o irá afectar.

Todo este frenesim é realizado com calma e moderação, respeitando a essência das personagens e pautando a sua actuação não só com diálogos inspirados, como com silêncios reveladores. Vince Gilligan é o maestro e, até agora, a orquestra tem funcionado em total harmonia. Duas personagens que me surpreenderam imenso e que percorreram percursos verdadeiramente agitados sem que, por um momento, nos apercebêssemos de que se tratam de personagens ficcionais, foram Skylar e Hank. Skylar, que era somente a esposa de Walt, a principal figura de que Walt escondia o seu segredo, cresceu a olhos vistos e deixou de representar simplesmente esse papel tão secundário. Nenhuma outra série do género arrisca revelar “o grande segredo” (o motor deste tipo de séries) logo numa terceira temporada, decidindo em vez disso brincar sucessivamente (ao longo de várias temporadas, como “Dexter”, por exemplo) com o assunto sem a coragem de realmente o expor e lidar com as consequências. “Breaking Bad” não tem medo e, assim, vemos Skylar aperceber-se da actividade ilícita do marido logo no começo da terceira temporada. A descoberta arrasa-a e arrasa a união dos dois. Os primeiros episódios foram quase exclusivamente dedicados a Skylar e à sua reacção, e não me posso queixar do que nos foi mostrado. Desde o impressionante “I Fucked Ted” ou a cena em que Skylar chama a polícia quando encontra Walt dentro de casa até à decisão que mais tarde toma de contribuir para a lavagem de dinheiro vai um grande passo e, no entanto, sei que, de forma exemplar, todas as pequenas etapas de desenvolvimento foram percorridas pela personagem. Também Hank, vítima de stress pós-traumático, sofre, não só com a possível nova deslocação para El Paso, como também com o resultado do confronto com os Cousins, que desferem a última machadada num homem que, outrora, se considerava (e aparentava ser) indestrutível.

Episódios como “One Minute”, “Fly”, “Half Measures” e “Full Measures” são exemplos da soberba qualidade desta série, que, por um lado, mostra ter cojones para evoluir independentemente do factor longevidade e, por outro lado, mostra ter a habilidade de criar episódios em que não imperam as cenas de acção, os grandes twists ou as revelações bombásticas, mas que nos satisfazem para lá do habitual. Uma história forte, uma trama coesa e a evolução contínua das personagens são os principais ingredientes de “Breaking Bad” – confiem em mim: se ainda não viram, está na hora de o fazer! Tipo, já.

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