A série da minha vida: Six Feet Under (por Miguel Bento)

Six Feet Under é para mim a série mais marcante desde que sigo séries com regularidade, para quem me conhece até pode achar que poderia ser o Lost, mas antes do desta houve algo que me prendeu e me envolveu mas sobretudo abriu uma visão do que é um argumento brilhante e em que os canais de cabo americanos começavam a mostrar toda a sua força. Comecei a ver a série nos últimos episódios na primeira temporada na rtp2 há muitos anos. Na altura ainda não era muito fanático de séries, mas esta tinha algo diferente a começar pelo tema central: A morte. A série era toda ela sobre a morte seja ela natural, espiritual ou social, todos esses campos foram abordados ao longo das cinco temporadas. Cada episódio começava com uma morte e um funeral que davam o mote, sempre com algum humor negro e muitos dramas as personagens deambulam pelos sofrimentos alheios que acabam por ser uma reflexão sobre a sua própria existência.

Mas olhemos para a história de uma família quase tão unida como despedaçada. Os Fisher são aparentemente mais uma família americana como qualquer outra, com os seus problemas, as suas ilusões e desilusões. A história começa com a morte do patriarca que deixa como ‘herança’ a sua Funerária Fisher & Sons. Além de organizarem as cerimónias fúnebres, preparam também os corpos para a sua despedida numa cave anexa à casa onde moram. Não há aqui nada de macabro, é uma profissão que existe e que apesar de estranha é uma espécie de conciliador entre os membros daquela família.

A matriarca Ruth Fisher (Frances Conroy) é uma mulher depressiva e submissa, fruto de uma vida difícil e de uma família manipuladora, a morte do marido permite a Ruth alargar os seus horizontes, mas a necessidade de proteger a família e sobretudo não desiludir os filhos acaba por limitar muito a sua vontade de ir mais longe. Do casamento com Nathaniel Fisher nasceram três filhos, Nate, Michael e Claire. Nate (Peter Krause) o mais velho sempre foi o filho mais espiritual, sempre procurando algo mais da vida com sucessivos empregos mas sobretudo para se afastar do negócio da família que nunca quis, mas que eventualmente acaba por lhe ir parar às mãos. Mais tarde o personagem é diagnosticado com um aneurisma o que vai mudar completamente a sua forma de estar na vida. Mantém uma relação amor ódio com Brenda (Rachel Griffiths) com a qual casa e tem uma filha. Esta personagem Brenda é igualmente complexa e mantém uma presença forte ao longo de toda a série, sendo motivadora de muitos dos problemas de Nate. O segundo filho de Ruth é David (Michael C. Hall) que é homossexual, mas que no inicio não assume essa sexualidade e esconde-se em relações dúbias e fortuitas, mas acabará por conhecer Keith (Mathew St. Patrick), um policia também gay que o ajudará a ultrapassar os seus problemas. David gere juntamente com o pai a Funerária Fisher and Sons, e após a morte deste não aceita bem a presença do irmão Nate na gerência, na realidade ele esconde alguma inveja e ressentimento pelo carácter livre e independente do irmão que ele nunca conseguiu ter. Claire (Lauren Ambrose) é a filha mais nova e a rebelde da família, que se envolve em diversos problemas com drogas e com a dificuldade em perceber o que realmente quer da vida, vê no irmão Nate o seu modelo e confidente.

A série explora temas muito fortes ao longo do tempo, e sobretudo quebrou alguns tabus na sociedade americana, que só canais de cabo tinham ousadia de agarrar. Desde a sexualidade explorada pela personagem David onde podemos ver todo o percurso desde assumir a homossexualidade, as relações esporádicas e os problemas que isso causa socialmente. Numa fase mais avançada o casamento e a adopção acabam por ser também abordados neste contexto. Temas como o uso de drogas de forma muito recorrente, aborto, a bissexualidade e a indefinição de carácter ou de capacidades cognitivas são temas que passam pela personagem Claire. Depressão, sexualidade na terceira idade e a independência à família são transversais aos personagens mais velhos, sobretudo Ruth, a matriarca. Ainda dentro do espectro mais lateral da série foca a relação incestuosa entre Brenda e o irmão Billy (Jeremy Sisto) que é também bipolar, as relações extraconjugais do sócio da Fisher and Sons Frederico (Freddy Rodriguez) e uma quantidade de outros temas que ainda é difícil ver na televisão americana.

Se posso olhar para a série e eleger um episódio que diz tudo sobre a série seria o magnifico final, e foi talvez a única série que me fez chorar nos momentos finais, mas para evitar contar spoillers falo de um episódio do meio da série que é igualmente fantástico. Há um momento que particularmente que se destaca para mim com o sugestivo titulo de That’s My Dog (E05T04), neste episódio David é raptado juntamente com a carrinha funerária (e um morto) por um aparente engate de rua, só que a sua aventura transforma-se num autentico pesadelo onde David é torturado psicologicamente e quase assassinado. Tudo isto podia ser banal, mas nesta série tudo o que acontece aos personagens deixa marcas e este é um dos momentos mais sufocantes da série onde a personagem David se altera quase de forma radical. Mais tarde na série acontece o reencontro com o seu captor que é um dos momentos mais brilhantes da série. Este é um dos muitos exemplos da excelência da série.

Eu quando resolvi escrever este texto pensei em rever a série para me voltar a interiorizar na série, mas na realidade não foi preciso, alguns anos depois de ter terminado ainda consigo ver muitas das cenas que fizeram uma das melhores séries de todos os tempos e sobretudo conhecer os personagens e os seus dramas. Mudou sem dúvida a forma de escrever televisão, mostrou actores que ainda hoje são reconhecidos pelo seu talento como Michael C Hall e até inspirou novas séries como é o caso de Brothers & Sisters que tem uma premissa muito parecida e que apesar de ser mais soft mantém uma linguagem que vem de Six Feet Under. Aliás a linguagem é uma dos elementos mais fortes da série onde clichés se transformam em cenas altamente emotivas e perturbadoras.

Allan Ball foi o criador desta série, o hoje autor de True Blood, deu-nos ao longo de cinco temporadas algo que até agora não voltamos a ver. Aconselho a quem gosta de séries dramáticas com toques de humor negro, não irá perder o seu tempo.

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2 thoughts on “A série da minha vida: Six Feet Under (por Miguel Bento)

  1. A introdução dos pensamentos parvos, que todos nós temos, elevavam sempre a série para um nível ainda mais realista e com muito humor negro à mistura.
    É uma série única e dificilmente haverá algo semelhante.

  2. Porra cara sem duvidas Six feet Under é um fechamento perfeito do ciclo simbiotico e desgraçado que é a vida. A serie é excelente em todas as vertentes que possa alcançar. QUando assitir ao ultimo episodio a unica coisa que vinha em minha cabeça era “quando é que vou vencer? Isso vai valer a pena?” Foda cara, serie foda!

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