A Série da minha vida: Desperate Housewives (por Rui Alvites)

Corria o ano de 2006 quando, numa noite quente de verão, a altas horas da madrugada me levantei da cama com a frustração típica de quem não consegue dormir. Dirigi-me ao salão e numa tentativa desesperada de fazer algo que me ocupasse o tempo até à chegada do sono tardio, sentei-me no sofá e liguei a TV esperando encontrar as televendas a dar azo aos seus momentos bizarros de promoção de produtos de segunda categoria e de origem duvidosa. Fiz um zapping rápido pelos diferentes e pouco variados canais generalistas e qual não é o meu espanto quando vejo, na Sic, uma cena em que uma mulher ruiva e fogosa tem um estranho diálogo com um homem, deitado numa cama em sofrimento, no qual se percebe que o homem acabara de tomar uma dose elevada de medicamentos para convencer a mulher a fazer algo, e esta simplesmente deixa-o morrer. Aquela cena chamou-me a atenção sem saber bem porquê. Pousei o comando e continuei a ver. E qual não é o meu espanto quando depois daquela cena pesada surge no ecrã uma mulher desajeitada numa qualquer cena de comédia. Que quebrou totalmente o clima do momento anterior. E pouco depois uma loira atraente com aspecto desgrenhado gritando com os muitos filhos ruivos que lhe destruíam a casa bebe um copo de vinho com uma morena estonteante que se queixa da falta de dinheiro e dos sonhos que deixou para trás quando deixou de ser modelo. Foi este o meu primeiro contacto com Desperate Housewives, mesmo que na altura eu não soubesse o que estava a ver. Passei 20 minutos a ver histórias que não entendi devido à falta de conhecimento sobre as histórias que em geral, mas sei que gostei. E uma semana depois lá estava eu de novo em frente à TV pronto para seguir as desventuras de 5 senhoras nada convencionais que resolviam os problemas de formas pouco ortodoxas e que viviam mais situações caricatas diariamente do que aquelas que seriam saudáveis para o ser humano comum. Nesse segundo episódio vi o genérico e soube finalmente o nome da série que estava a ver: Donas de Casa Desesperadas. Sei que no fim desse episódio estava simplesmente rendido e soube que era um produto que queria acompanhar durante muito tempo. Assim comecei a ver a série da minha vida.

Donas de casa desesperadas tem uma premissa bem simples: seguir a vida de quatro donas de casa de um subúrbio americano não é nada de novo e são muitos os filmes de segunda classe que se podem ver a tentar explorar o mesmo tema. Mas esta série é diferente precisamente por pegar num tema tão banal e conseguir transformá-lo num óptimo produto de televisão que consegue entreter tanto os fãs do romance banal, como aqueles que preferem alguns momentos cómicos de pura comédia, não esquecendo também os sádicos como eu que gostem de ver dramas constantes, daqueles capazes de fazer cair uma ou outra lágrima. A série sempre foi muito mal encarada por muita gente que nunca a tentou conhecer porque sempre foi divulgada aos sete ventos que Desperate Housewives é uma série de mulheres e para mulheres. E eu sempre me perguntei porquê. Será porque os protagonistas da série são mulheres? E seu disser que as acções que tomam são por vezes muito mais fortes que muitas outras tomadas por machos noutras séries? Ou será porque na América passa aos domingos à noite, um horário preferencialmente familiar e pouco direccionado para cenas de violência mais apropriadas para homens sedentos de violência? Para esta respondo com meia dúzia de episódios de puro êxtase em que a brutalidade é a palavra de ordem. Digo e repito para quem nunca viu a série que não a julgue pela sua aparência: Donas de casa Desesperadas não é nem nunca foi uma série só para homens. É antes uma série feita para agradar a todos devido ao sua colectânea muito variável de temas explorados bem como a transição constante entre momentos de teor humorístico, dramático ou de acção.

Como todos devem saber, desde os seus prelúdios a série explorou de forma exaustiva a vida de quatro mulheres peculiares: Bree, Susan, Lynette e Gaby, representando respectivamente os papeis da paranóica, a tonta, a mãe desesperada e a bomba latina. Associadas a elas estão sempre os respectivos maridos/namorados, bem como os filhos e outros parentes que apesar de raramente serem o foco principal da acção, acabam sempre por condicionar o que se vai passando na vida de cada uma das protagonistas. Aliando-se às quatro senhoras principais sempre houve uma quinta senhora que levantou grandes polémicas, tanto pela sua personagem como pelo seu estatuto na série: Edie. Esta personagem começou por ser uma simples coadjuvante maléfica cujas participações esporádicas sempre traziam algum tom de maldade e ironias profundas, mas ao longo das temporadas o amor que espalhou entre o público fez dela uma verdadeira protagonista com direito a histórias próprias e lugar de destaque nos outdoors promocionais de cada temporada. Daí talvez tenha gerado tanta polémica a brusca decisão de Cherry, o criador da série de matar a personagem e eliminar a actriz do elenco. Actualmente esse papel de co-protagonista está ocupado pela personagem Renne sobre quem se fez grande espalhafato antes do início da sétima temporada e que está a desiludir um pouco pelo facto de não conseguir, nem de perto nem de longe, gerar os momentos de qualidade de sua antecessora. Seja como for, é certo e sabido que todas as personagens que passam pela série são caricatos e especiais, seja pelas personalidades caricatas e especiais, ou pelos segredos tenebrosos que guardam do mundo.

E já que falamos em segredos, há que perceber que esse é um dos pontos essenciais da série. Todas as temporadas têm uma linha de enredo para cada uma das personagens, e uma história paralela que explora um determinado mistério que nos dá um primeiro contacto no primeiro episódio, vai sendo explorado de forma mais ou menos inteligente até ao fim da temporada e no último episódio nos é exposto de forma total surpreendendo-nos sempre, hoje menos que no início. E já tivemos de tudo: a mãe que mantém o filho com problemas mentais preso na cave; o dentista maníaco que matou a mulher e a enterrou, depois de lhe arrancar todos os dentes; a mulher que viu a sua filha morrer esmagada por um armário e a substituiu por outra sem dizer nada à família; o homem que viu a sua família morta num acidente de viação e jurou vingança contra o condutor do outro carro e a até a mulher defensora do ambiente que foge à anos com o filho que roubou a um pai maníaco. Há histórias para todos os gostos, mas aquela que une todos em consenso quando se trata de escolher o mistério mais bem orquestrado e bem orientado é o primeiro mistério de todos, a morte de Mary Alice que continua a ter repercussões até aos dias de hoje.

E quem é Mary Alice? Mary Alice é a narradora da série. Tendo cometido suicídio por motivos então desconhecidos no primeiro episódio da série, a senhora tem sido desde então a narradora de todas as histórias que acompanhamos ao longo de sete anos, sendo também Eça a responsável pela voz de fundo que acompanha o fim de cada episódio em momentos que sempre fazem a análise do que foi explorado ao longo dos quarenta e cinco minutos de história e que sempre foram muito bem escritos e interpretados pela actriz.

Uma outra característica da série são os seus chamados “episódios especiais” que não são algo intrínseco à narrativa desde o início mas que fazem parte de todas as temporadas desde que o primeiro aconteceu na terceira série. Estes momentos especiais são episódios que geralmente vão para o ar em Dezembro, antes do hiatus de natal e que geralmente nos trazem um momentos traumático que afecta de forma mais ou menos profunda a vida das protagonistas. E mais uma vez temos situações para todos os gostos: o rapto que acaba em massacre, o tufão que arrasa o bairro e muitas vidas, um incêndio descontrolado num bar em noite de concerto e até a queda de um avião em plena festa de natal. São sempre momentos diferentes e bem conseguidos, mas a verdade é que desde a sua primeira aparição que estes episódios parecem sempre surgir algo soltos da restante narrativa e sempre desconectos. Seja como for, são presença assídua e já estou eu nesta altura à espera de saber o que Cherry preparou este ano para o último episódio antes de Natal.

Não vou falar mais até porque poderia estar longas horas a falar sobre a série sem nunca me cansar. Penso que o objectivo desta crónica semanal é dar a conhecer a nossa série favorita e acima de tudo, explicar o porquê dessa preferência, de forma a podermos convencer quem não a conhece a dar-lhe uma oportunidade, ou pelo menos a ter uma ideia real do que trata o produto em questão. Foi precisamente isso que tentei fazer: expor os pontos altos da série para provar que as ideias erradas que se criaram em torno dela não correspondem à verdade. “E pontos negativos?” perguntam vocês. Também os tem, como é óbvio. Estando já na sua sétima temporada, os tempos áureos das primeiras temporadas já passaram e hoje em dia as histórias estão muito mais fracas e repetitivas, apesar de esta sétima temporada estar a ser uma agradável surpresa. Os mistérios nem sempre foram bem conseguidos e os episódios especiais deixam sempre um pouco a desejar, mas o núcleo da série, aquilo que faz dela aquilo que é continua lá. Quem gostou da primeira, gosta da sétima e gostou de todas as outras. Donas de casa é uma série especial, daquelas que ou se ama ou se odeia. E essa característica faz como que não possa ser a série da vida de qualquer um. Mas sem dúvida alguma que é a série da minha vida.

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