A Série da minha vida: The Sopranos (por Tiago Duarte)

Quando se fala nas melhores séries há sempre uma que eu elevo acima de todas as outras. Depois de ter visto uma panóplia infernal de séries e depois de muito tempo despendido não tenho duvidas nenhumas em afirmar que “The Sopranos” é o melhor produto de sempre da televisão. É o produto que mais se aproxima da perfeição e provavelmente vai demorar muito tempo até alguma conseguir atingir o mesmo nível. Há tanta coisa que faz Sopranos a série mais brilhante de todos os tempos que torna-se complicado explicar toda a beleza da série.

Começando pelo início refira-se que uma série de televisão, ao contrário dos filmes, que são obras em que o expoente máximo é o realizador, têm no argumentista o elemento mais importante. Sopranos contou nesse papel, e entre outros, com Terrence Winter, Matthew Weiner e o criador e responsável pela história de toda a série, David Chase. Os dois primeiros estão actualmente a fazer sucesso com as suas próprias criações. Winter com Boardwalk Empire e Weiner com Mad Men. Não duvidem que muito do que estas séries têm deve-se a Sopranos. David Chase tem em Sopranos a sua obra-prima, ele próprio reconheceu que dificilmente voltaria a trabalhar em televisão porque seria impossível superar o que foi alcançado com Sopranos.

O brilhantismo de Sopranos reside na história forte de um chefe da máfia com problemas pessoais, nos momentos brilhantes que povoam toda a série, desde os íntimos momentos de família até às cenas de violência. Quase todas as personagens nasceram para os papéis que aqui têm. Tudo soa tão real na série que desde o início as personagens se agarram a nós para nunca mais nos largar. Mas David Chase foi sobretudo mestre na quantidade de alma artística que deu a esta criação, desde o primeiro momento que Chase sabia o que queria. Sopranos é um forte Character Study, é uma narrativa brilhante posta em imagens. A mais pequena cena pode ter uma importância monstruosa no futuro, Chase criou uma história com cerca de 86 horas (episódios) como se fosse um livro ou um filme muito muito grande, tudo foi feito para encaixar, a mitologia da série desde o funcionamento da máfia, até às famílias que havia, tudo foi criado com perfeição. O brilhantismo absoluto está em como ligaram toda a história, desde o primeiro até ao último momento.

Sem entregar partes da história é difícil de fazer entender o que significa o parágrafo anterior. Uma maneira de explicar é fazendo um paralelo. Todos que vemos séries temos, uma vez ou outra, momentos, ao ver as nossas séries favoritas, em que nos sentimos recompensados pelo tempo que gastamos com ela. Seja por uma personagem que volta a aparecer ou uma pequena referencia a outro momento da série, essas pequenas coisas. Os criadores mostrarem que a história é contínua, trabalhada e planeada é um enorme sentido de recompensa para os telespectadores. E Sopranos leva esse sentido de recompensa ao limite. A mais pequena coisa na série faz sentido. Chase criou uma obra de arte porque Sopranos conseguiu juntar 86 episódios espalhados por 8 anos na televisão, numa grande história em que personagens, ambientes, momentos, sonhos, subconsciente, psicologia, filosofia…Tudo encaixava da história do mobster Tony Soprano. Chase criava algo que só os predestinados são capazes de alcançar, uma obra-prima que iria marcar uma época.

Responsável por trazer à vida Tony Soprano foi James Gandolfini que, enquanto Tony Soprano, teve o ponto mais alto da sua carreira. Aliás Gandolfini é tão extraordinário no papel de Tony Soprano que provavelmente muito poucos actores alguma vez atingiram pontos tão altos em termos de qualidade na sua profissão. Tony é ao mesmo tempo o melhor vilão e o melhor herói. A complexidade da personagem é deliciosa. Desde a maneira de respirar de Tony, até à maneira de falar, passando pelos gestos e atitudes. Gandolfini criou uma das mais poderosas figuras que vi quer, em cinema quer em televisão.

À volta de Tony Soprano giram muitas e muitas personagens também elas profundamente complexas sendo impossível estar a falar de todas aqui. Desde a família propriamente dita, até a família da mafia. Carmela, AJ, Junior, Dra. Melfi, Christopher, Adriana, Pauli, Silvio e muitos outros. Cada um destes nomes representa uma grande personagem. Este drama não é sobre mafiosos, não é sobre tiroteios, sobre mortes, sobre sexo. Sopranos é sobre um homem à procura de um sentido na vida e ao mesmo tempo a história de toda a gente que o rodeia, todos procurando o seu espaço na vida de um homem que não sabia quem era.

A última temporada elevou o nível da série ainda mais com momentos fantásticos e um final que é impossível de esquecer. E não é impossível de esquecer por ter um final explosivo ou violento ou algo parecido. É impossível esquecer o final porque este traz à memória pequenas conversas, pequenos momentos, até cenas surreais (quem viu sabe a que me refiro) para um plano em que tudo se junta e forma a plenitude do que era pretendido ao mostrar a história de Tony.

Se Sopranos tivesse sido um filme não teria sido tão bom, se tivesse sido um livro não teria sido tão bom. Sopranos teve um equilíbrio perfeito ao longo de seis temporadas e para isso contribui para além de uma grande argumento, um grande guião, ou seja, diálogos, cenas, etc. A realização cinematográfica definiu o comportamento de várias séries daí para a frente. Desde os responsáveis pelo casting de actores, passando pelos próprios actores. Banda sonora. Tudo trabalha em harmonia. E, importante também referir, uma extraordinária visão da HBO, permitiu, talvez que pela primeira vez, se fizesse uma série completamente independente das moralidades que guiam a televisão, cheia de regras e conceitos pré-estabelecidos.

Não é por acaso que se diz que Sopranos é um marco na história da televisão. Não há a mínima duvida que Sopranos redefiniu a maneira de se fazer televisão. Uma série que dá que pensar, que aborda temas que todos nós somos capazes de identificar e reflectir, que apresenta cenas que marcaram muita gente para sempre, diálogos cheios de significados. Ao mesmo tempo conseguia ser extraordinariamente simples de seguir que tinha em partes iguais drama e divertimento. Sopranos foi uma homenagem a muito de que se fez ao longo do século XX na sétima arte. Sopranos é o melhor discípulo de Godfather e também o grande passo na humanização das personagens de TV. Mostrando que podia haver complexidade neste meio.

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2 thoughts on “A Série da minha vida: The Sopranos (por Tiago Duarte)

  1. É a série (a par de 24) que gostava muito de ter visto e nunca vi :S
    O facto de ser logo 6 temporadas não vai ajudar muito pois o tempo é pouco mas está nos planos.
    Bom texto 😉

  2. Sopranos é daquela série que está na gaveta. Primeiro por ser considerada a melhor série de todo o sempre, depois porque tu és um chato e te prometi. E, depois, porque parece uma série que me adaptarei…depois comento com conhecimento de causa.

    Cumprz

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