Uma série de porquês: Fringe

Porquê que Fringe está a ter um arranque de temporada tão sólido?

Talvez seja a pergunta mais feita nesta temporada. E, claro, a mais respondida. Fringe é, claramente, a série que melhor arranque tem vindo a ter nesta Fall Season. A série teve, nestes 4 primeiros episódios, uma base segura. Não foi uma premiere fantástica e mais nada. Não foram dois episódios brilhantes e, depois, eclipsou-se, como ocorreu em temporadas passadas. Foram 4 episódios de nível alto/muito alto, mantendo um espectador preso ao ecrã. Mas, antes de mais, e de ir a esta temporada, vamos começar a analisar a série do início.

Fringe era, claramente, a série que mais expectativa criava para a Fall Season do ano de 2008. Lost estava a começar o seu quinto ano, mas já com data final marcada, e a procura de uma série substituta era lançada. Adicionava-se o estilo (um Sci-Fi Cientifico que prometia dar a conhecer novos mundos ao mundo) e um nome à equação: J.J.Abrams. Tudo isto, principalmente o último factor, fazia com que Fringe partisse com o astral em alta, já com um carimbo fixo.

O piloto não ajudou nada à festa. Num ritmo consistente, mostrando como a série podia ser excelente, com uma escrita muito boa e representações que, apesar de não serem um 80, também não chegavam ao 8, as expectativas subiram. Começaram a chover elogios por esse mundo fora. Não que fossem injustificados. Mas a bola de neve que Fringe era antes de ser transmitida foi bastante fortificada pelo piloto de uma hora e meia. Depois veio o segundo. Conseguiu ser bastante bom, mas foi a novidade. Se bem me recordo, foi um caso. Mas um caso que nos deu aquilo que se pretendia: algo diferente, prendendo-nos à novidade. O problema é que a novidade não dura muito.

Assim sendo, e esgotando-se a novidade, a série começou a encontrar um problema. Primeiro porque nunca conseguiria ser uma nova Lost. As razões estavam à frente de quem queria ver: não tinha uma narrativa contínua, vivia de um núcleo duro e curto para criar uma narrativa tão complexa e, existindo a equipa dentro do FBI, os casos surgiam como fungos, multiplicando-se a cada episódio. Depois porque, não podendo ser Lost, a série ficava com um vazio de conteúdo. Ou mudava radicalmente e tornava-se num produto que tinha muitas mais probabilidades de se tornar maçudo, incoerente e um cancelamento já à espera, visto que essa mudança levaria a uma série com narrativa contínua, algo que uma série como Fringe nunca conseguiria nem consegue fazer, ou continuava a travessia no deserto com pequenos oásis.

O segundo caminho foi o escolhido. A série, que se tinha mostrado fantástica no início, tornou-se algo com acontecimentos ocasionais. Pagava o nome de ter o senhor J.J.Abrams na equação. A série tinha características desse génio que anda por aí, tal como Lost teve mas, tal como Lost, a série não conseguia viver unicamente dos J’s do senhor. Lost tinha um estilo completamente diferente, e por isso, foi-se notando que J.J. e o seu testamento não chegava. Fringe percebeu-se quase no início. Não tinha as mesmas características contínuas de Lost e isso fez com que a série tivesse logo de abrir caminho próprio.

Assim sendo, e com uma primeira temporada muito irregular (numa famosa lista do io9, só foram considerados importantes 7 dos 20 (mais um…já lá iremos) episódios da temporada), a série sofreu um paradoxo que ainda a prejudicou mais. Entrava, no ano passado, uma aposta da Fox intitulada Glee. E a série musical, com características duvidosas, mas que não é para aqui chamada, veio revolucionar a grelha semanal. Fringe recebeu um voto de confiança ao ser colocada numa quinta, onde tinha os pesos pesados da TV Americana pela frente. Era a prenda mais envenenada que a série poderia ter.

Assim, e após ter aberto a porta dos outros universos, a série voltou a encerrá-las. Este presente envenenado fez com que os argumentistas, que tinham na Season Finale aberto uma porta interessante, não a abrissem completamente. O medo de perder público, que já se tinha mostrado durante a primeira temporada, fez recuar. Tentaram jogar de igual para igual. E isso só era possível por episódios descartáveis (a segunda temporada, na lista já mencionada, só tem referidos 9 episódios dos 23 que compuseram a mesma), que se visse agora e não interessasse para mais nada. Fringe entrou, de novo, numa série de erros, em episódios desnecessários e, talvez pelo tema associado à série, a conseguir manter a cabeça acima da linha de água.

Claro que, um desses erros, e talvez o mais clamoroso, foi trazer um episódio da primeira temporada, tapando um buraco com esse mesmo. A série demonstrava como estava perdida, à procura de uma solução. Até que, num movimento de génio, a série arranjou a chave para a fechadura. Fringe, em Over There, tornou-se Fringe. E não uma tentativa de ser Lost, uma tentativa de ser um CSI Sci-fi. Fringe descobriu o seu espaço.
É irónico ver que a chave da solução já tinha sido encontrada. E, analisando posteriormente, a série sofreu uma queda por causa de um erro de quem construiu a grelha da Fox. Fringe sofreu pela desafinação de Glee. Pois, e após ter aberto a porta das viagens entre universos por completo, cresceu. E assim chegamos à tão afamada pergunta: Porque é que Fringe está a ter um arranque de temporada tão sólido?

O primeiro factor, que eu já mencionei, é que Fringe não tentou imitar outras séries. A descoberta e a concretização do que a série é (pois, para mim, a série descobriu o caminho no final da primeira temporada, mas pensou que não viria a dar frutos, arrependendo-se disso já a meio da segunda) veio fortalecê-la. Lembro que, no final da primeira temporada, temos conhecimento que Peter é de outro universo e, nesse mesmo episódio, viajamos para lá. O esquecimento que a série teve, relembrando-se da sua verdadeira estrutura em alguns fogachos, prejudicou a segunda temporada.

O segundo factor resume-se àquilo que o Mateus Borges disse no twitter, no outro dia, e que eu subscrevo completamente. Citando-o: “Fringe substituiu a espera pelos episódios mitológicos com uma tensão que vai carregar a temporada e permitir a presença dos casos da semana. Isso tirou um peso das costas dos roteiristas, manteve o interesse dos fãs, adicionou novos temas no DNA da série… Linda jogada, linda.”. Eu incluo que essa jogada só foi possível com a descoberta do DNA da série. Muito dificilmente alguém acrescenta algo, se desconhecer o que vai acrescentar. Fringe descobriu, claramente, o seu DNA, em Over There. Descobriu que aquele era o caminho. Assim sendo, e aí concordando em absoluto com o Mateus, a série arranjou uma artimanha de voltar aos casos sem maçar (já aprofundarei). Arranjou uns brinquedos extra para todas as crianças que vêem a série e, assim, o mal-amado brinquedo dos “casos” deixou a ser o único brinquedo interessante. Claro que, neste Lego grande, faltam analisar outros factores.

O terceiro é vermos, por exemplo, o romance entre Peter e Olivia. Antigamente era um brinquedo que a série utilizava sozinho. Era um ponto. Agora, juntou-se ao arco que suporta a série e, assim sendo, é uma peça que cresce de modo a que a série possa crescer, também. Permite não ser a parte amorosa e passar a ser a parte dramática. O puzzle de Fringe abriu-se completamente com uma decisão, com um momento. É fantástico ver isso a posteriori.

Outro aspecto interessante é a forma como a série passou a desenvolver os casos em paralelo com a narrativa. Como referi, a série, ao arranjar o brinquedo/Lego diferente, permitiu que o outro (narrativa) se juntasse ao primeiro (casos) e fizessem um Fórmula 1 muito interessante. O caso passou a contribuir para a narrativa, apesar de existir. Fringe, desde o início, se assemelhou a um procedural. O que faltava é algo que Chuck, por exemplo, descobriu desde o início: ligar ambas as fichas, as dos casos e as do arco, a uma tripla e ligar isso à corrente. Ou seja, o caso ao tornar-se parte do arco contínuo deixou de ser caso e passou a ser algo plasmático. Nem é sólido nem é líquido. E é aqui que, para mim, reside a parte mais fantástica deste novo Fringe. O caso passar a não ser caso.

Ainda faltam referir mais cinco pontos interessantes. O primeiro é o dramatismo que a nova narrativa imprimiu e, adicionado a isto, a acção que provoca. Vemos sempre as personagens no fio da navalha, próximas de descobrir a verdade. Isso, primeiramente, coloca acção na série pois temos de andar sempre em correria para não deixar que os pratos em cima das varas parem de rodar e ainda caírem. Andamos, portanto, de um lado para o outro… Depois e, de novo ironicamente, em simultâneo, a série consegue imprimir uma carga dramática extraordinária. A explicação é que, devido a este jogo do filho da navalha, o dramatismo cresce. Queremos ver, primeiro, o que vai acontecer. Por onde começará o partir dos pratos. E, depois, percebermos como as personagens responderam ao estalido. A espera tornou-se um factor de extrema importância na série. O drama é criado, em parte, daí. A outra parte rege-se por sabermos que as personagens estão todas a ser enganadas e não pudermos dizer nada. De ver tudo a decorrer e a ver uma narrativa sem um solavanco que resolva o imbróglio. Não vemos nenhum nó na corda que faça cair o trapezista. E neste ciclo vicioso, se cria dramatismo, adicionado a outros factores, como a relação amorosa de Peter.

Depois temos de falar da forma como os actores cresceram. Joshua Jackson e John Noble (principalmente o último) deram um show na última temporada. John Noble estava no seu espaço, permitiu que se brincasse com o louco Walter como lhe desse na cabeça. Joshua Jackson tem uma personagem bastante carismática e, adicionado a isso, consegue não comprometer nada. O problema estava em Anna Torv. Mas Anna Torv teve um crescimento gigantesco. Para isso poderá ter contribuído que, nesta temporada, a menina ter uma personagem de duas caras. Pode ter sido… mas é fantástico ver que a actriz, que no início não fazia que o mínimo recomendável, agora dá tudo. Recordo-me, e já passou mais de uma semana, a cara que ela faz ao despedir-se do namorado da Olivia do outro mundo. Aquele olhar vale mil palavras… e aqui encurta-se bastante as explicações da série.

Antes de ir para o outro lado, vou ter de falar do Walter. A chefiar a Massive Dynamic a porta abre mais portas do que pode parecer inicialmente. Abre uma oportunidade de a guerra ser mais equilibrada, abre um novo mundo, quando estávamos restringidos a materiais de laboratório. E abre um mundo totalmente escondido até agora. Acredito que os segredos da MD serão revelados e trará ainda mais peças ao puzzle.

Os últimos dois aspectos interligam-se. Isto porque tem a ver com a porta que a série abriu com a exploração do outro universo. Este facto permitiu, primeiro, o aparecimento de personagens que reconhecemos mas que estão mudadas. Um sentimento de conhecido desconhecimento. Um oximoro claro… Permitiu, então, que as personagens ficassem ligadas e fossem logo aceites mas ainda com alguns “segredos” por descobrir. Claro que, com novas “pessoas”, e não personagens, a série abriu novos casos. Alguém via um caso como o do 3.03 no nosso universo? Viam? Era impossível. Agora, com os conhecimentos do outro lado, a série permite construir e destruir como quiser, ir brincado com tudo e todos, e dar-nos um sentimento paradoxal que torna a série ainda melhor.

Quanto ao segundo aspecto do outro universo e último deste texto, tenho de falar do reaparecimento de Charlie. A despedida do Kirk Acevedo foi demasiado repentina e foi muito prejudicial para a série. Teve um propósito mas esse foi demasiado pequeno para o desaparecimento da personagem, o apoio da Olivia. O seu (re-)surgimento torna-se benéfico, dá-nos, de novo, uma personagem conhecida, já morta. E, claro, faz-nos pensar se John Scott (Mark Valley) não poderá ainda aparecer. Uma das inúmeras hipóteses da série…

Fringe disse, num dos episódios que introduz os universos, que cada decisão do ser humano leva a formação de um novo universo. A cada resposta “sim” o homem cria um universo em que disse “não”. Não acreditando totalmente nisto, o que tenho de dizer é que o “sim” de Fringe criou dois universos. E as possibilidades que abriu são gigantescas, talvez demasiadas para qualquer comum ser humano. Fringe tem todas as portas abertas para nos dar a melhor temporada da série. E, com certeza, vai-nos dar uma temporada do outro mundo. Asseguro-vos eu e assegura-vos o meu outro eu do outro lado. Pois nunca ninguém é demasiado grande para brincar aos Lego’s.

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