Análise: Temporada 2009/2010 (Tiago Duarte)

Antes de mais nada referir o enorme prazer e orgulho que tenho de estar a escrever para este cantinho do grande António Guerra. Posto isto avanço para quem eu sou. Sou o Tiago Duarte do Portal de Séries e ao longo dos anos o gosto pelas séries foi crescendo dentro de mim e é aqui que me encontro. Já vi e terminei muitas séries mas não me considero um viciado em séries, considero-me antes um apreciador, estudioso, desta nobre arte. Uns gostam de pintura, ou música, para nós, incluo aqui o António também, são as séries a nossa maior fonte de cultura e prazer e por isso as tentamos avaliar. Os nossos gostos podem não ser generalizados ou o padrão, mas o que nos distingue daqueles que só vêem séries é que nós avaliamos e tentamos sempre argumentar e reflectir sobre os produtos que assistimos.

Durante este ano as séries que vi não abundaram, sobretudo novas séries na minha lista quase não existem. Isto porque como bom estudante e rapaz aplicado que sou, não tenho tempo para tudo. Portanto tenho de ser selectivo e tentar escolher produtos que preencham os requisitos de qualidade que pretendo, e com o passar dos anos vou sendo mais exigente. Assim e infelizmente das novas que decidi pegar, nenhuma se destacou pela qualidade.

Caprica era a que eu depositava mais expectativas. Com o término de Battlestar Galactica o panorama televisivo no que às “Space Operas” diz respeito ficou seriamente mais pobre e eu, desde que vi Firefly, desespero por uma série que preencha o buraco que esta deixou. Battlestar Galactica portou-se bem nesse aspecto e Caprica, para já, falhou redondamente. Primeiro coloco a culpa em mim que esperava algo próximo de BSG e Caprica não tem parecenças com a sua série mãe. Aliás acho que um dos maiores problemas de Caprica é que não sabe o que quer ser, tenta-se levar demasiado a sério sem primeiro conseguir usar a mitologia inerente a ela para formar uma narrativa congruente.

Assim, Caprica dá-nos muitas personagens, muitas personificações filosóficas de dramas humanos, mas nunca conseguindo destacar-se em nenhum dos dramas que nos apresentam e estes dramas duram e duram e a temporada pouco avançava. Mas nem tudo é mau e na criação dos Cylons, na maneira como mostram a sua humanização e no uso da realidade virtual Caprica consegue pontos bastante positivos. E é aqui que está a relação com BSG e são os seus pontos mais fortes. Fora isso, a série levou-se demasiado a sério sem conseguir passar essa seriedade para as suas narrativas de forma coerente.

Acho que Caprica não é uma série capaz de agradar à grande maioria pelo que provavelmente não vai haver muitos leitores a massacrar-me pelo que disse. Mas já o que vou dizer de Glee não me deixa tão seguro de ser bem recebido. Ora bem, Glee. E o que é Glee? Maioritariamente é uma febre injustificada que pegou a maioria das pessoas porque lhes dá exactamente o que lhes agrada. Mas não é uma boa série para mim porque falha redondamente em termos de argumento, diálogos e personagens principais. Em termos musicais, Glee oscila entre o jeitoso e o muito mau, com números bastante agradáveis e que vão buscar músicas fora do âmbito da cultura Pop americana (para mim a maioria da Pop americana é o pimba português), quando pega fora dessa Pop safa-se bem.

Mas ao longo do tempo deixaram de se preocupar em nos dar números musicais agradáveis e passaram a querer agradar o grande público, ora na maioria das vezes o gosto do grande público não significa que eu goste. Tirando as músicas Glee deixa-me com muito pouco que queira comentar. Rachel é uma personagem horrível e tem nela quase tudo que odeio em mulheres. Fynn e Will não se saem muito melhor. As restantes personagens começam muito agradáveis mas em vez de terem um crescimento natural, e uma evolução de personalidade e de densidade psicológica, parece que se vão apagando e no fim já não há paciência para aturar a série.

A ABC, que não é canal que me fascine apesar de ter LOST que foi uma paixão durante anos, sempre vai tendo séries capazes de se defender bem quer em audiências quer em termos de crítica, este ano com V e Flashforward, que eram grandes apostas, saiu-se mal. Flashforward é uma série perdida, sem rumo visível e com criadores que parecem incapazes de escrever uma história contínua e arcos positivos, acho que tiveram mais olhos que barriga, pretendendo um bom drama cheio de mistério e perderam-se no meio das personagens e na quantidade de episódios que tinham de fazer para preencher a grade da ABC. V não sai tão mal desta temporada de séries, mas nem tudo são rosas. Primeiro não é grande “espiga” em termos de actores e diálogos, e apesar da premissa e história serem visivelmente interessantes, a sua condução ao longo da temporada foi mal feita e os problemas de bastidores da série não poderiam nunca ter ajudado neste aspecto.

Basicamente a minha experiência com séries novas foi esta e estão nesta altura a pensar que sou um desgraçado de um triste que não sabe ver e gostar de uma série. Não é verdade, acho que tive azar nas séries que decidi ver desta vez. Mas mereci esse azar porque a série que mostrou o melhor piloto da temporada, Modern Family, foi rejeitada por mim porque o meu tempo não permitia mais comédias. E assim como que amaldiçoado sujeitei-me a estas séries. De Glee já desisti, FF foi-se à vida, de Caprica e V ainda espero um regresso mais triunfante.

Refiro ainda The Pacific que vi e adorei o piloto, mas que não consegui ver ainda tudo. Vou ver um dia tudo de uma assentada como fiz com Band Of Brothers e não tenho dúvida nenhuma da qualidade excepcional da série isto porque Band Of Brothers é de longe um dos produtos de televisão mais fascinantes que vi.

Se em termos de estreias não havia muito para falar já nos regressos podia encher páginas, mas nem eu nem vocês teriam paciência para esse tipo de dissertação, eu não teria para escrever nem vocês teriam para ler. Acreditem. Foi um grande ano para várias séries e uma grande desilusão para outras. LOST terminou, Dexter teve o seu melhor ano, Fringe teve grandes episódios e Chuck é sempre Chuck. Depois ainda houve How I met Your Mother, Grey’s anatomy, Merlin… Infelizmente para vocês já não me vão ver a falar mal de Heroes porque desisti da série quando a “Veronica Mars” morreu, numa das piores cenas de que tenho memória e já vi muita coisa má.

Poderia, para dizer o que devia ser para mim uma série, dar-vos o exemplo da quarta temporada de Dexter, que foi basicamente tudo o que uma série deve ser. Dexter começou e acabou em grande, pelo meio esteve sempre em grande. Começou revelando um dos maiores vilões de sempre e um dos actores que mais me fascinaram. Michael C. Hall dá o show que já me tinha habituado em Six Feet Under, os actores secundários conseguem acompanhar os dois senhores da série, Michael C Hall e John Lithgow, e que senhores são estes. Todos os episódios nos traziam grandes cenas, excelentes revelações e avanços. O único ponto menos positivo, e até me custa falar disso quando deveria estar a spoilar o final de temporada mais escandaloso, controverso e magnificamente doentio e marcante desde que Tony Soprano mexeu na mini JukeBox, mas vou falar desses finais à mesma porque sou maldoso. Ora bem, a relação entre Maria Laguerta e Angel Batista foi sonolenta e sem grande interesse, até aceito que haja narrativas sem relação ao arco principal, mas com um arco de tal qualidade as narrativas paralelas podiam ser melhores. Em relação ao final, não acrescento mais porque não quero estragar a surpresa a ninguém.

Também Fringe teve um grande ano e é basicamente o único procedural que consigo ver, isto porque é muito mais que um procedural e mesmo só vendo como tal, os seus casos são fascinantes. O cliffhanger final é também cruel e deixa muita vontade pelo regresso da série. Chuck é uma das séries mais sólidas, despreocupadas e inocentes que vejo e é isso mesmo que quero nela, ficção simples capaz de nos fazer sonhar e apreciar todos os minutos de cada episódio. Desde A-team que não havia uma série tão maravilhosamente simples e exageradamente descomplexada.

Merlin teve um ano muito superior ao primeiro e sobretudo os últimos episódios revelam uma série muito mais capaz de arrebatar o espectador e deixar um bocado para trás aquele drama sem consequências para as personagens que nos tinha dado sempre. Merlin é uma história de drama e de fortes revelações para as personagens e no fim da temporada isso começa a ser-nos mostrado. A Soap Opera, Grey’s anatomy continuou uma Soap Opera este ano e não sendo um ano muito positivo, e não foi com certeza  com os últimos episódios da temporada que os show runners conseguiram fazer-me perdoar-lhes os longos meses de drama barato, de personagens atribuladas demais para ser verdade e de lésbicas e mais lésbicas a aparecer em cada esquina. HIMYM teve um ano regular mas depois de tantas temporadas ser regular já não chega, quero avanços nas histórias, quero um protagonista sólido e não este Ted sem demonstrar qualquer interesse e demasiado agarrado à ideia de que quer encontrar a mulher da vida dele, ou mostram a mãe de uma vez ou mudem um bocado a atitude desinteressante do Ted.

Falta-me falar de LOST e para mim é muito difícil falar de LOST. E não digo isto por dizer. Acho que muitas vezes as pessoas dizem que é difícil falar disto ou daquilo, quando não o sentem e o que querem e falar até perder o fôlego daquilo ou disto. Mas não é o que sinto com LOST. Realmente não sei o que dizer. Neste momento vou a começar o meu segundo ano de universitário, comecei a ver Lost com amigos no nono ano, foram 5 anos a seguir a série religiosamente todas as semanas. No final, o carinho e a satisfação pela resposta final é plena. Mas sei que Lost teve vários erros, teve caminhos apagados a meio, perguntas por responder, incongruências que vão ficar para sempre incongruências. Mas para mim, Lost era sobre aquela gente perdida numa ilha em situações adversas, o meu carinho por elas foi crescendo e no fim resta a enorme saudade de todos estes anos, teorias, conversas, esperas pelo próximo episódio ou temporada. Esqueço facilmente os pontos em que sei que Lost não foi brilhante e concentro-me em dizer que foi brilhante nas emoções que me transmitiu, que foi brilhante a agarrar o telespectador e foi brilhante na maioria das vezes num argumento poderoso e cheio de personagens capazes de se destacar. Para mim isso chega.

Obrigado, Guerra, pelo convite para escrever para este teu cantinho. Sei que é um espaço importante para ti e ser convidado é mais do que um prazer, é uma certeza que ganhei um amigo devido a este mundo das séries.

E retribuo o agradecimento ao Tiago, que também considero um amigo neste mundo, pela oportunidade de publicar o seu excelente texto. Já sabes como eu gosto da tua escrita rapaz…o IP ficou um site maior. Amanhã poderá não haver análise, visto que o João Paulo teve um problema. Mas terá as Notas Semanais…por isso, fiquem à espera disso.

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