No Ordinary Family – Apresentação

[Sem spoilers mas com um sentido metafórico valente…estão avisados] A mística heróica é algo que, desde os princípios dos tempos, o ser humano tem. Nos seus sonhos mais profundos somos pássaros humanos, relógios viventes, parando e avançando a história da vida como queremos e desejamos, ou balanças animadas, que desequilibram a lógica dos pesos que os seres humanos idealizaram. Todos nós queremos ser algo diferente, algo que nos faça diferente (nem sempre a mesma coisa) e únicos. Queremos passar a ser heróis e não humanos. Apesar de para se ser herói tem de se ser humano. É talvez o que não nos permite atingir as asas que nos permitam: o não aceitar da condição humana. Pois, quando virmos o quanto herói somos só de sermos humanos ficaremos felizes.

Mas, como esta conversa que escrevi é muita metafórica, mais vale passar para a realidade. E, realmente, o mundo das séries é o mais propício para a existência de heróis como os vemos à luz da palavra. Uma daquelas pessoas que consegue destruir um prédio com um mero pontapé e um xuto, se o dito prédio for construído contra terramotos, daquelas pessoas que conseguem correr mais rápido que a velocidade da luz, ou melhor, que a luz não os consegue acompanhar, ou até daquelas pessoas que se estica que é capaz de substituir a Ponte Vasco da Gama, ou ainda aquela se esconde em cada canto devido ao camaleão que se tornou, pintando de roxo a rua cinza (literalmente). Faltou alguém? Não. Falo-vos da família da Disney que tem super-poderes (podia referir também quem consegue tornar o mundo num mar de gelo, e só por esse senhor é que ainda o aquecimento global não trouxe piores consequências) que passou num filme intitulado The Incredibles e que sabe utilizar os heróis para proveito próprio, para construir uma narrativa infantil que é mais adulta que parece. Pois não só as crianças sonham…

Vendo deste prisma e pegando na última série de heróis que vi (a homónima Heroes), as expectativas sobre No Ordinary Family não eram brilhantes. Eu, pessoalmente, não gosto de séries sobrenaturais. Ou melhor, gosto de uma boa série. Ponto. Claro que, para mim, encontro melhores séries em dramas como Dexter ou Breaking Bad, mas abro sempre espaço à uma série que misture algo “irrealista” (True Blood, The Walking Dead, Fringe ou Doctor Who, p.e.), visto que vejo nelas (ou verei…expectativas) algo superior a esse tópico. Assim sendo, e com tudo isto, as probabilidades de a nova série da ABC se aguentar eram pequenas.

Mas vamos lá começar a escrever sobre a série. No Ordinary Family tem um mercado repleto. Para além das duas mencionadas a série ainda chama a si X-Men, só para mencionar a sequela que a série refere. Mas muitos outros exemplos podia arranjar. Assim sendo, e num mercado tão preenchido, havia duas formas de abrir a série. Ou escolhia-se um caminho não percorrido e terrenos baldios à espera de sinal de vida e, assim sendo, a série tanto podia descobrir um jardim magnífico onde cresce-se ou um precipício onde cai-se, ou podia-se escolher um caminho já construído saindo, por vezes, do mesmo, mas não o perdendo de vista, repetindo ideias já usadas mas que resultaram. O caminho do sucesso difícil mas permanente é o primeiro, o segundo é apenas uma forma de manter uma série viva. No Ordinary Family escolhe o segundo…

Essa escolha é compreensível. Permite à série crescer como um embrião seguro, que não vai ser brilhante (algo que, cada vez mais, parece remetido para a cabo) mas vai manter uma boa história, e, para um canal aberto, é uma aposta que vai dar já frutos. Poucos, mas dá. Para quem gosta de árvores empanturras, como eu, não sabendo por onde escolher, No Ordinary Family não se encaixa. A construção das personagens, apesar de bem-feita, é muito simplista. É uma série que não terá grandes personagens, nem poderia ter, visto que o tema adjacente só permitiria que isso houvesse se o caminho escolhido fosse o das personagens (o caminho difícil que, como escrevi, está cada vez mais entregue à cabo para o aproveitar) e não o dos poderes. E é isso que acontece. Os poderes não aparecem como uma característica, mas A Característica. Logo tudo é construído a partir desta, tudo o resto é subjugado aos poderes. Faz com que as personagens não sejam heróicas, numa ironia fantástica.

Mas, mesmo assim, as personagens não mostram incoerência assim tão extraordinárias como isso. São bem pensadas, principalmente para o propósito que é tentado (mas um pouco mal conseguido) em empregar uma carga dramática à série. Isto porque NOF não é uma série dramática. É um drama muito levezinho que tem comédia pelo meio, utilizando acção para esse proveito. Esta mistura faz com que a série se complete. Heroes falhou, primeiramente, quando tentou tornar-se uma série dramática tendo os poderes como ponto principal das personagens. No Ordinary Family, no piloto, não comete esse erro. A carga dramática está presente, mas é tão ténue que parece não contar. Assim sendo, a série vira-se para a acção, que parece o ponto principal, e para a comédia, que existira de vez em quando. Tudo assente numa base de drama que desaparece quando se coloca a alcatifa (com alguns buracos) por cima.

Com tudo isto, e para não cometer erros, a série sabe escolher muito bem os diálogos, a apresentação da mesma e a narrativa. Comecemos pela apresentação da série, que não poderia ser de outra maneira, ou melhor, podia mas não teria o mesmo impacto. Pegando num exemplo de sucesso (Modern Family…e agora um spoiler muito pequenino), construindo a narrativa com uma série de entrevistas às personagens (até agora só duas passaram por lá), a série faz dois em um. Avança com a história, dando saltos temporais importantes disfarçadamente, e consegue ir apresentando as personagens. Isto faz com que a apresentação, ocorrendo aqui, deixe espaço para a acção decorrer na narrativa. Encaixa muito bem as peças, apresentando para além de isto tudo, a série: uma série sobre heróis e a adaptação destes ao mundo, misturando ideias (várias) dos Incríveis. Mas esse paralelismo vocês notaram.

Depois os diálogos, que conseguem não ser brilhantes (nem isso passara a ser pedido a partir do momento que a série enveredou pelo caminho mais fácil) conseguem ser dignos, digamos. Não há nada de extraordinário, até há uma monotonia e um cair no óbvio, mas isso era esperado. Assim sendo, os diálogos são outro mecanismo de avançar com a trama e pouco mais. Trazem, por vezes, toques de drama, mas de novo muito ténues. E pouco mais…

E, depois, a narrativa. A narrativa que nasce dos poderes, da forma como as personagens os utilizam. De novo vai-se buscar ao filme da Disney umas quantas ideias e toca a coloca-las em prática, porque resultaram. E, claro, resultam. Mas não são uma novidade, tornam a série mais uma repetição que outra coisa. Há pequenas diferenças, mas tudo parece levar a um cenário do filme da Disney. E isso torna a série uma repetição…

No fundo a série, seguindo os caminhos já traçados, não erra. Mas também não inova. E é esse o principal problema que ela tem. A forma como tudo se constrói já foi visto. Já não é novidade. E, para mim, onde precisava de controlar o relógio mais do que nunca, não há tempo para repetições. É boa, mas não chega…

PS: A nota sairá amanhã ou depois de amanhã… (suspense)

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4 thoughts on “No Ordinary Family – Apresentação

  1. Nunca entrei numa série onde houvesse tanta carga sobre poderes. Não me deste nem vontade de ver, nem de rejeitar. O que faço? (Que bem conheces os meus gostos)
    Conseguiste bem escapar aos spoilers usando a metáfora, boa opção.

    PS: ai ai esses erros ( – “onde crescesse ou um precipício onde caísse” ).

    • Primeiro, muito obrigado pelo elogio e correcção. Não tenho-te enviado os textos é o que dá…

      Quanto à série eu, se fosse a ti, apostava. Acho que irias gostar. É leve. Tem parte da tua bochecha direita…acho que ias gostar.

  2. Sinceramente, o piloto para mim não chegou. Preciso de ver mais para poder dizer sim ou não à série. Do que vi, gostei. Achei interessante. Contudo, tenho medo que a série se torne mais do mesmo, ou seja, a centrar-se sempre nos poderes fazendo com que cada episódio se torne martirizante e secante.

    • A mim também não chegaria, mas como a série só entra em serviço já muito tarde, fica já de lado. Não me satisfaz completamente, por isso. Quanto ao medo, está presente e não estou a ver que fujam muito disso, sinceramente. Veremos…

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