Doctor Who – 1st Season

[Muito pequenos spoilers…pequeníssimos, para dizer a verdade] Quem já não sonhou com um mundo de castelos e dragões? Acho que ninguém pode dizer que não pois, de dragões todos os sonhos têm um pouco e, para haver dragão, tem de haver castelo para conquistar. Doctor Who é, no fundo, um sonho de castelo e dragões. O castelo é a TARDIS, máquina viajante que protege o mundo, ou os mundos. De dragões tem um trilhão deles, desde homens gatos, máquinas terroríficas ou até o último ser humano existente. E, claro, existe o cavaleiro e a princesa guerreira. O cavaleiro que conhece mundos de que ninguém houve, a princesa guerreira que descobre esses mundos, sempre fascinada pela aventura. Doctor Who é, no fundo, uma história infantil futurista e um pouco mais adulta. Mas, já se sabe, toda a gente gosta de ouvir o “Era uma vez…” de vez em quando. Nem que seja para revisitar sonhos de dragões e castelos.

Doctor Who é, primeiramente, uma série sem nexo. É, no fundo, uma série estúpida. Vemos, na série, impossibilidades para a nossa ciência e sem lógica nenhuma. Assim sendo, e vendo deste prisma, Doctor Who não tinha nada que torna-se uma série brilhante. Mas a série consegue, quase por magia, transformar-se na luz que abre todas as portas ao Doctor e a Rose. Pois, para a série, a física é algo que não existe. A ciência é metida a um canto, arrumada para, quando for preciso, ir-se buscar um bocadinho, uns pauzinhos. Se alguém vai para Doctor com o pensamento de ver os erros físicos, eles são gritantes. É uma mina que nem é preciso escavar para encontrar o ouro. E, é neste exagero, que a série consegue arranjar consistência. Pois, despreocupando-se com as leis da natureza, consegue que a base que a suporta seja unicamente as narrativas, o mundo impossível, e não o mundo terreno. Doctor Who encontra no sonho, talvez a menos palpável realidade humana, a base sólida para construir a série.

A partir daí, e com actores que correspondem ao que se pede, apesar de não serem brilhantes, a série tem uma imaginação extraordinária. Consegue construir, primeiramente, dois protagonistas com quem nos apegamos. O Doctor, que tem muito de Who, devido as perguntas que deixa no ar, mas que é uma personagem que admira os humanos acima de tudo e todos, e Rose, a fiel companheira, que é, talvez, a parte mais racional da série, pois partilha inicialmente connosco, espectadores, a estupefacção de descobrir novos mundos e questionar-se e, posteriormente, tal como nós, aceitar aquilo e desfrutar da viagem. Assim, e seguindo estes dois, a série dá-nos excelentes episódios. A primeira preocupação é aquela que já falei: fazer com que a nossa mente mude de “Rose que questiona” para “Rose que aceita”. Os primeiros episódios servem para isso, arranjar a mente do espectador. Não que Doctor Who precise, mas para se extrair verdadeiramente aquilo que a série quer dar, é preciso haver este pacto. Pois, para todos os mundos maravilhosos, há uma chave escondida e uma fechadura pequena para ela. Doctor Who é esta: aceitar a série como ela é.

A partir desse momento, a série abre-se para nós de uma forma extraordinária. Apesar de ser uma série de ficção científica, Doctor consegue ter uma moralidade extraordinária, o que a faz aproximar ainda mais dos contos infantis. Existe sempre uma lição a se retirar de tudo o que a série nos dá, existe uma verdade mais profunda. Este salto contribui para que a série fique ainda mais completa que já era. Diverte, primeiramente. Depois consegue ter imaginação que nos faz desejar por mais, numa ânsia de descoberta que a série consegue aproveitar muito bem, essencialmente nos episódios duplos. E, claro, para finalizar, este moralismo presente nas narrativas, muito por parte de Rose, que tem uma capacidade moral enorme, adicionado a do Doctor, que é conquistada aos poucos.

Isto já chegava para tornar Doctor Who uma série do melhor calibre que existe, dando aquilo que eu peço a uma série: divertir-me. Doctor Who consegue isso facilmente. Mas, para tornar o diamante mais brilhante, há dois aspectos que ainda lhe adicionaram, como se torna-se o bolo mais doce. O primeiro é o drama que existe nas viagens de Rose, deixando a mãe e o namorado para trás. Esta contradição entre as aventuras do Doc. e a menina dos cabelos loiros com as pessoas deixadas para trás é o contrapeso na balança, aquilo que faz com que a série não seja unicamente um conto infantil. É algo que, apesar de contradizer quase todas as bases da série, a torna mais rica. O segundo aspecto é o arco que a série arranja. Desta vez é o “Bad Wolf” que nos acompanha durante toda esta viagem aos confins dos mundos. Este sentido de continuidade, com pequenas pistas escondidas nos episódios, culminando tudo no final, torna a série uma peça de extraordinária beleza, com uma continuidade fantástica de se assistir.

Assim, e suportando-se no mundo dos sonhos, Doctor Who vem dar-nos excelente momentos. Falta um pouco de comédia (algo já utilizado na segunda temporada, pois a primeira foi muito séria para uma série como Doctor pretende ser), mas é uma pequena falha num meio de vários mundos de qualidades. De resto, Doctor Who está no ponto, principalmente nos episódios finais da temporada, onde a receita é aperfeiçoada.

Concluindo, Doctor é uma série esquisita. Ponto final parágrafo. Mas é nessa esquisitices que encontra aquilo que pretende dar. Consegue dar-nos mundos que nem nos melhores sonhos encontraríamos, dá-nos, para além de bons dragões, boas narrativas. E, claro, já sabemos que cada viagem na TARDIS vai-nos levar a algo totalmente inesperado. E todos nós gostamos de ser surpreendidos. Por isso desliguem a parte “científica” da mente e partam a descoberta. Pois existem muitos Adamastores nesta viagem pelo tempo. Não se arrependerão…

Era uma vez, no planeta Raxacoricofallapatorius, uma menina loira e um homem de dois corações. Ambos à procura de aventuras.

PS: Este texto tem de ter um agradecimento final ao Mateus Borges, que me recomendou a série. Sem ele nunca teria descoberto o mundo extraordinário de Doctor, Rose e a fiel companheira TARDIS.

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