Generation Kill

Há momentos na vida que parece que tudo o que queremos escapa. Foge como um pássaro sem asas, mas que continua a fugir como dentro desta impossibilidade existisse um mero sentido. Há outros momentos que o sentimento não é de fuga. É de falta. De sentirmos falta de atingir algo, o horizonte prometido mas nunca concretizado. Mas ainda existe outros onde o que existe é mesmo uma falta. Uma falta de futuro, de sentimentos. Uma falta de vida. Generation Kill é uma história de guerra. De disparos para aqui, de mortos para acolá, de vida destruída ao som de metralhadoras. Mas, e se dentro de uma guerra existem vencedores e vencidos, em Generation Kill isso não existe. Existem pessoas. Existe o respirar. A sobrevivência. Pois Generetion Kill é isso: sobreviver ao sentimento de falta.

Vindo com a chancela da HBO, e tendo o dedo dos criadores de The Wire (uma série sempre a escapar as minhas escolhas para recuperar), a série passa-se na última verdadeira guerra que existiu. Iraque, 2003. Regressos ao passado, a guerra da mentira e de uma parte da natureza humana: a ambição. A ambição, o fim ser o que é necessário atingir, sem se pensar no meio que se destrói. A narrativa é-nos dada pela visão de um repórter da Rolling Stones, destacado para a guerra, e acompanha a vida de fuzileiros. Evan Wright (Lee Tergesen) é o nome do escriba de serviço, o responsável, no fundo, pelo retrato real da guerra. É a principal palavra que retiro da série: realismo. Não existem artificialismos para esconder a verdade, como muito se tentou naquela altura. Não existe a tentativa de dar um ar mais floreado a guerra. Não se tenta que a guerra desapareça e apareça uma batalha, onde os mortos desaparecem miraculosamente e os vivos, ao verem a vida humana destruída a sua frente, enterrarem, no último sinal de dignidade e respeito pelo ser humano. Dignidade é o que não existe em guerra, ou pelo menos é escondida. A série não tem medo de chocar-nos, de deixar-nos com a cabeça a roda com o realismo imprimido. Pois, se não estamos preparado para isto, não o façamos. Se o fazemos é porque as consequências que são servidas não são as suficientes para tirar o sono.

Mas, dentro desta destruição das emoções humanas, existe uma zona de refúgio. Programados para matar, os fuzileiros começam-se por apresentar como personagens lineares, ou seja: estão ali para matar e não para sofrer, estão ali para receber e, como nos é dado a perceber no início, para se divertirem com isso. Uma geração cada vez sem sentimentos, muito devido a forma como cresceram: crescendo num meio em que tudo vale e que ninguém se preocupa com os danos que ficaram para trás, até sendo esta falta de escrúpulos reconhecida. Nascem assim seres humanos prontos para matar, sem sentir remorsos de todas as vidas que ceifaram. São seres humanos que já não o são pois, quando passaram a desrespeitar os outros, passaram a ser animais de caça, pronto para caçar tudo o que vêm pela frente, sem misericórdia, como se a sobrevivência depende-se disso.

Ao longo dos episódios esta perspectiva vai mudando. As personagens tocam mais o lado humano, demonstrando que sentem, que sofrem. O considerado Iceman da série, o sargento Brad Colbert (Alexander Skarsgård), sofre uma modelação durante toda a série, demonstrando-se muito mais humano que inicialmente. Estas mudanças nas personalidades das personagens que a série nos vai trazendo demonstra-nos que nem tudo é negro nem tudo é claro no ser humano. É um cinzento, alguns mais escuros, outros mais claros, mas sempre um cinzento. Brad é o exemplo da eficiência, da frieza. Mas, a medida que a série vai viajando, ele começa o verdadeiro valor dessa guerra: que esta não tem valor nenhum. Tudo é feito e tudo é perdoado, não há consequências para quem ataca indefesos, não há uma pequena réstia de dignidade. O tenente Nathaniel Fick (Stark Sands) vem também nessa linha, mas de uma forma muito mais rebuscada. A personagem tem sempre o paradigma de cumprir ordens e, ao cumprir grande parte, ir contra si próprio. Por causa disso é que se torna difícil perceber o que ele é. Onde ele se situa: na zona mais escura do cinzento ou mais clara? Devido a complexidade da personagem, fico-me pelo meio. Ele é o cinzento de alguém que não sabe para que lado há-de decair.

Num ponto absolutamente oposto temos os cinzentões da série: Dave ‘Captain America’ McGraw (Eric Nenninger) e Craig ‘Encino Man’ Schwetje (Brian Wade). As personagens dão uma característica humorística a série, mas, mais dos que os restantes, no leva a pensar seriamente. Rimo-nos instintivamente, mas no fundo do choque das decisões e dos actos que executam. São a representação real do lado mais guerreiro da guerra: do matar por prazer, de fazer sofrer porque não se tem mais nada que fazer. São o expoente máximo de uma geração que nasceu sem sentir e isto leva-os a não pensar.

Para além disso, a série mostra-nos a unidade dos fuzileiros. A existência de “um por todos e todos por um” dentro do grupo. A montagem final abre com todo o regimento em pose, mas a série é toda um exemplo disso, principalmente as cantorias, muitas vezes começadas por Ray Person (James Ransome), o soldado que, no fundo, mais sofre mas que mantém o ar de que nada lhe afecta. Mas esta união é outro forte da série, pois demonstra-nos que, apesar da solidão existente em quase todos os seres humanos que passam pelo ecrã, esta é partilhada, uma solidão em grupo.

Depois, e para concluir a abordagem das personagens, temos Harold James Trombley (Billy Lush), o novato do ramo e o principal representante da nova geração, que nasceu com o computador a frente e sem nada que lhe fizesse sofrer, passando a não saber o que é isso. Esta é uma personagem que nos demonstra o verdadeiro estado de degradação que está o ser humano, indo para a guerra só para uma coisa: matar. Qualquer coisa que lhe apareça a frente, seja homens, crianças e camelos. Tudo o que ande é inimigo para ele. Não há melhor metáfora para o estado de grande parte da sociedade.

Assim, e só em 7 episódios, a série conquista. Consegue dar-nos excelentes momentos, uma boa recapitulação, e uma visão realista de como foi a verdadeira guerra. Não é um produto que toda a gente goste. Não é um produto que toda a gente entre. Não é nada disso. Generation Kill é uma reflexão do que nos tornamos. De como a vida humana é cada vez mais inútil, mais fútil. A guerra passou-se no Iraque. Acho que nenhum de nós esteve lá. Mas vemos, na guerra que a série nos traz, pedaços do nosso dia-a-dia. De disparos cada vez mais sem sentimento. De desprezo completo. De uma falta de dignidade profunda. Generation Kill representa a (parte) sociedade em que vivemos. E da formação de uma nova geração: uma geração morta em termos sentimentais.

Por isto tudo é altamente recomendável. Pois é preciso, cada vez mais, reflectirmos o que nos passa a frente dos olhos e não unicamente passar a frente. Pois quem ficou para trás, ao olharmos para a frente, é uma parte de nós.

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5 thoughts on “Generation Kill

  1. Muito bom o texto…ainda não tive oportunidade de ver Generation Kill, mas sou dos mais acérrimos fãs da HBO e é algo que está sempre na minha lista Generation. Band of Brothers é para mim a mini-série mais bonita de sempre, é das melhores coisas que pode haver. Generation Kill pelos vistos parece que me ia agradar quase tanto. Pode ser que em breve a veja.

  2. Já tinha ouvido falar do nome.. mas nem sabia que é deste género que tanto adoro..
    Tal como o Tiago, também tenho Band of Brothers no top.. Por isso, mais dia menos dia começo a ver esta.

    Cumpz

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