A Série da Minha Vida: Anatomia de Grey (por Raquel Silva)

Com a grande diversidade de séries no panorama televisivo, torna-se impossível destacar apenas uma favorita de entre as que assistimos e adoramos diariamente. O próprio estado de espírito altera as nossas preferências, levando-nos a escolher uma comédia hoje e talvez um drama amanhã, que a seu momento nos transportarão para mundos que precisamos de abarcar. No entanto, há uma série que merece destaque nesta rubrica, tratando-se de uma das minhas favoritas, de sempre, e que ainda hoje continuo a acompanhar com o maior apreço. Falo de Anatomia de Grey.

Não importa o dia ou a hora. Se houver Anatomia de Grey por perto, serão decerto quarenta e cinco minutos da minha vida que despenderei a ver mais um episódio, novo ou antigo – quase uma hora de muito drama e diversão, com as personagens que nos acompanham desde o primeiro momento. Por vezes dou por mim fixada na televisão quando um episódio da segunda ou terceira temporadas surge no ecrã, não conseguindo parar de o visualizar, independentemente de já o ter visto cinco ou seis vezes.

É importante falar das personagens, que fazem verdadeiramente da série o que ela é, como se apresenta aos nossos olhos e como não se vê à primeira vista. Não são personagens estereotipadas, iguais, simples, pelo contrário: são figuras com substância, com histórias de vida muito diferentes e complexas, que vamos conhecendo à medida que a história se desenrola. Anatomia de Grey dá-nos a conhecer uma equipa de médicos de Seattle que apresenta uma grande heterogeneidade ao nível de carácter, com relações entre as personagens surpreendentes, por vezes. Basta observarmos a relação de amizade entre Meredith Grey e Christina Yang, duas pessoas tão diferentes, mas que se dão tão bem.

Estas personagens vão crescendo ao longo das já sete temporadas que Anatomia de Grey nos ofereceu ao longo dos últimos seis anos, umas mais, outras menos, mas cada uma à sua maneira, o que nos permite também uma identificação com elas. Vemos Christina a tornar-se uma melhor cirurgiã com a incapacidade de Burke operar, Meredith a conhecer a Alzheimer através da mãe, George a casar em Las Vegas e a divorciar-se pouco depois, Izzie a perder o homem que ama e a ultrapassar a dor, bem como Alex a tornar-se um homem de compromissos ao apaixonar-se verdadeiramente. E o elenco escolhido a dedo permite também este facto.

O drama está sempre presente na série, se não explicitamente, pelo menos nos seus recantos. Por vezes torna-se exagerado, com episódios muito dramáticos, como o tiroteio no hospital no final da segunda temporada, ou a ‘chacina’ no final da sétima. Contudo, é este drama intrínseco que se torna verdadeiramente tocante para quem vê, conseguindo-se chorar, agarrar a almofada com receio ou suspirar com as mais diversas cenas. De realçar a pitada de humor que procura também estar sempre presente, desabrochando por vezes quando menos esperamos, desanuviando o ambiente, dando-nos a conhecer os lados mais amalucados ou estrategas das personagens de que tanto gostamos.

Também estas personagens vão desaparecendo, dando lugar a novas, mostrando ‘todas’ as personalidades de médicos que possivelmente existem. Surge a ligação com Clínica Privada, que a autora Shonda Rhimes teve a genialidade de conceber a partir da personagem Addison Montgomery, originando uma história paralela que não teve, no entanto, metade do sucesso da de Grey. E surgem personagens como Lexie, irmã de Meredith, que muda de cabelo, cresce, ama e sofre, mas acaba por ser sempre a mesma menina inocente que pisou pela primeira vez o chão do Seattle Grace.

A vida pessoal dos médicos é aqui retratada, surgindo relações entre eles e as mais diversas complicações. A relação entre Meredith e Derek é um desses exemplos: começa por ser extra-conjugal, torna-se um namoro normal, sofre a existência de um terceiro elemento e de um consequente triângulo amoroso, reflecte separações e fases conturbadas, mas culmina a certa altura com uma grande estabilidade e um casamento num post-it. É de resto a relação que atravessa as sete temporadas.

Um aspecto muito positivo a destacar nesta série são as frases que as personagens, nomeadamente a protagonista Meredith, declamam, se assim o pudermos dizer, no início e no final de cada episódio. Há frases geniais, de uma simplicidade enorme, mas de uma beleza ainda maior, que traduzem ensinamentos, morais, ou simplesmente constatações de coisas da vida. Deixo apenas uma delas para exemplificar: “Enquanto seres humanos, por vezes é melhor ficar na escuridão, porque na escuridão pode haver medo, mas também há esperança”. Belíssimo, não é? Obrigada, Shonda, por estas frases subliminares.

Por outro lado, a banda sonora da série é muito próxima do que se chama perfeito. Sempre adequada às mais diversas situações, inclui grandes canções de grandes bandas, que acabam por marcar momentos – dou o exemplo de Chasing Cars, dos Snow Patrol, que marca a morte de Denny e a dor sentida por Izzie. Breathe In, Breathe Out, bem como How to Save a Life e Breathe (2am), são alguns dos êxitos que a série incluiu nos seus episódios e que lhes deram uma dimensão ainda mais profunda.

Há quem diga que, tal como a grande maioria das séries sobre medicina, esta Anatomia de Grey contém inúmeros erros médicos; no entanto, podemos dizer que nos dá a conhecer uma enorme variedade de sintomas e doenças, oferecendo-nos visões pessoais e tocantes das mesmas. É o caso do Alzheimer, de transplantes, de acidentes que acontecem e provocam os mais estranhos casos médicos, servindo de chamada de atenção para todos nós, espectadores. E levam também a magníficas histórias de vida a que temos o privilégio de assistir.

Nem tudo são rosas, e esta série demonstra bem isso. Há personagens que fogem, outras que morrem, outras que não conseguem dar o passo seguinte numa relação. Temos em Burke um exemplo para o primeiro caso e em George um nome para a segunda situação. A dor é retratada quase cruelmente, embora tendo quase sempre a falha do exagero, e percebemos que, tal como na vida a que chamamos real, nem tudo pode acabar bem – nem mesmo na televisão.

A segunda temporada é, para mim, uma das melhores, sobretudo na recta final, tratando-se de um dos momentos mais tocantes e dramáticos de toda a série. De realçar ainda o episódio Superstition, que ainda hoje me traz memórias daquelas frases iniciais e finais, e das personagens que tanto nos fazem delirar com um dia de superstições. De resto, todos os finais de temporada têm sido tocantes e de uma grande carga dramática, de modo também a manter o suspense para as temporadas seguintes. Veremos como será a oitava.

Trata-se então de uma série que me apoquenta e diverte, em simultâneo, e que comecei a ver sem qualquer expectativa, depois de nem sequer ter gostado de alguns episódios que fui vendo na televisão. No entanto, quando a comecei a ver com olhos de ver, esta Anatomia de Grey tomou uma dimensão totalmente nova para mim – passei a adorar, simplesmente.

Para terminar, uma pequena analogia com a Anatomy Jane, boneca da mãe de Meredith que permite retirar os órgãos do corpo humano: Meredith é a alma da série, sendo a que mais sofre com as suas desgraças e as dos outros, e Anatomia de Grey permite-nos conhecer a fundo esta personagem, em todos os seus meandros, fragmentá-la em toda a sua anatomia intelectual. E é absolutamente fantástico explorar estas histórias e personagens que a série nos oferece. É por isso uma das minhas favoritas.

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One thought on “A Série da Minha Vida: Anatomia de Grey (por Raquel Silva)

  1. Sem dúvida, querida Raquel, uma coluna muito interessante! :)

    Anatomia de Grey é, sem dúvida, um dos dramas mais interessantes que passeia pela televisão nem que seja só por causa daquelas frases que, muitas vezes, já me fizeram pensar. Com episódios mais ou menos bons, Grey consegue sempre redimir-se e por mais cegos que estejamos quanto à direcção da história, no final, acaba sempre por compensar.

    E eu deixo-te com outra simples frase: ‎(…) It’s the pressure we put on ourselves that’s the hardest to bare. The pressure to be better then we already are. The pressure to be better than we think we can be. It never ever lets up. It just builds and builds and builds.
    ;)

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